Nigel Kennedy: rebelde por uma boa causa

Músico diz que é um inconformista e prova ao cruzar peças de Bach com Fats Waller

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2012 | 03h09

A série Tucca, em benefício de crianças e adolescentes com câncer, será aberta no dia 11 de abril com um concerto do violinista inglês Nigel Kennedy na Sala São Paulo. Em entrevista exclusiva ao Caderno 2, o músico revela que a noite vai começar com Bach e terminar com um tributo ao pianista de jazz norte-americano Fats Waller (1904-1943). Kennedy vem acompanhado de três amigos poloneses, os músicos Jarek Smietana, Jaron Stavi e Krysztoff Dziedzic. Casado com uma polonesa, Agnieszka, o violinista divide seu tempo entre Cracóvia e Worcesteshire, residência da ex-mulher e do filho.

Muito envolvido com a cena jazzística polonesa, que deu ao mundo músicos como Krzystof Komeda (autor da trilha de O Bebê de Rosemary) e Tomasz Stanko (Madre Joana dos Anjos), Nigel Kennedy gravou há quatro anos o CD A Very Nice Album com seu quinteto, tocando ao violino elétrico algumas composições jazzísticas de sua autoria. Ele já havia registrado, em 2006, o disco The Blue Note Sessions ao lado dos gigantes do jazz Ron Carter, Jack DeJohnette e Joe Lovano. Criado no meio erudito (a avô e o pai eram violoncelistas e a avó, pianista), Kennedy fala da sua rebeldia, da paixão pelo jazz e pela música pop (ele gravou Hendrix, The Doors e adora o rapper Jay Z).

Parece incrível, mas tudo o que se publica sobre você começa como uma frase do tipo "Nigel Kennedy não mostra sinais de mudança", o que me parece impossível para qualquer um, especialmente você. Como se definiria aos 55 anos? Um rebelde com uma causa política que toca para mudar o mundo ou um músico que se tornou rebelde por causa das injustiças desse mundo?

Se você não suporta mais ler frases como essa, imagine como eu me sinto. Chega uma hora em que é preciso parar de ler todas essas baboseiras que escrevem sobre você. Se forem levadas a sério, podem de fato arrasar qualquer um. Sou rebelde por natureza. Odeio que me digam o que fazer, como fazer, o que tocar, como tocar. Não toco para mudar o mundo, de maneira nenhuma. Gosto de explorar ideias e, em relação à política, como qualquer outro, acredito no que acredito e essas crenças nada têm a ver com música.

Certa vez você disse que tocar os clássicos é pensar constantemente na arquitetura da peça e que o jazz lhe parece mais espontâneo. Como você concilia ambas as maneiras de tocar, uma vez que transita nas duas áreas?

Você tem razão: por serem diferentes disciplinas, exigem abordagens distintas. Acredito que a música clássica ainda tenha relevância hoje, pois não faria sentido tocá-la se ela não tivesse nada de novo a dizer. Algumas composições são atemporais, como as de Bach. Toco-as constantemente. Para tocar os clássicos, é preciso ser disciplinado. Eu, por exemplo, paro de beber dias antes de qualquer apresentação - claro que, depois, é outra história! Com o jazz, embora se trate igualmente de música séria, você tem mais liberdade no palco. A comunicação, na área clássica, nem sempre conduz a uma verdadeira comunhão entre a orquestra e o solista, pois às vezes não dá tempo para ensaiar e se conhecer.

A música pop sempre esteve presente em sua carreira, que tem discos dedicados a Jimi Hendrix e ao grupo The Doors, além de concertos com o The Who. O que você identifica de singular no universo pop que você não encontra no mundo dos clássicos?

Hendrix está no patamar dos melhores compositores clássicos. Na boa música pop, há liberdade e possibilidade de explorar novos horizontes quando o músico tem conteúdo. Um tanto da música pop feita hoje em dia resulta de criatividade no processo de produção. Adoro o trabalho do Jay Z - ele é muito original e, definitivamente, muito inventivo, preocupando-se demais com a qualidade.

Você ajudou a revelar alguns compositores poloneses quando tocava peças do repertório romântico da Polônia compostas por Mlynarski e Karlowicz, acompanhado pela Orquestra de Câmara Polonesa. O que a música desses autores representa para você e como compararia essa produção com a dos autores ocidentais do mesmo período?

A música polonesa cresce a cada dia. Há uma trágica histórica sobre Karlowicz. Ele era jovem quando morreu soterrado numa avalanche nas montanhas Tatras, no começo do século passado. Na primeira vez que ouvi uma composição sua, achei que era sentimental demais, mas, numa segunda audição - e após um passeio pelas montanhas Tatras, um dos lugares mais lindos que conheci -, mudei de ideia. Karlowicz conseguiu descrever, de fato, essa beleza. As composições de Mlynarski são igualmente lindas e merecem ser ouvidas fora da Polônia, que, ao menos por ora, parece protegida do comercialismo que cerca a música.

As Blue Note Sessions, que você gravou há seis anos, foram uma grande surpresa para todos. Lembro que prometeu, na época, dedicar 50% de seu tempo ao jazz. Você vive na Polônia, um país que tem uma longa tradição na área e músicos de primeira, como o trompetista Tomasz Stanko. Você grava com músicos de jazz poloneses como fez com Ron Carter, Jack DeJohnette e Joe Lovano no Blue Note?

Gravo com jazzistas poloneses com certa frequência. Há uma vibrante comunidade jazzística aqui, muitos clubes noturnos onde tocar - e os músicos levam isso muito a sério. Alguns dos melhores estão no meu quinteto. Já fizemos turnês por várias partes do mundo e gravamos dois discos juntos.

A despeito de ter participado do Festival de Jerusalém em 2007, você se opõe à política israelense em relação aos palestinos. Você acha que um artista deve usar sua posição para criticar políticas governamentais?

O Festival de Jerusalém é dirigido por um amigo meu palestino. Artistas ou não artistas devem ser livres para expressar o que pensam. Sei que viramos alvos fáceis quando fazemos isso, mas sei também que, no campo político, nossas vozes são ouvidas com mais facilidade.

Quais são os compositores que você vai tocar em São Paulo?

Vou começar o concerto tocando obras de Bach e, na segunda parte, eu e mais três músicos fantásticos vamos mostrar novos arranjos das peças de Fats Waller: Jarek Smietana, Jaron Stavi e Krysztoff Dziedzic.

Não vai incluir compositores brasileiros no concerto?

O Brasil tem uma forte tradição de bons compositores clássicos. O líder de minha orquestra passa muito tempo aí e, quando chegar ao País, quero conhecer melhor a cena musical de São Paulo. Talvez ainda sobre um tempinho para uma partida de futebol (ele patrocina o Aston Villa F. C. de Birmingham).

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