Niemeyer recusa proposta para novo WTC

À beira dos 94 anos (ele oscompleta no dia 15), o arquiteto Oscar Niemeyer vive em intensaatividade profissional. Acaba de projetar um multiplex paraexibir apenas filmes brasileiros, que será erguido na orla deNiterói (RJ). Também projetou um novo e arrojado auditório paraRavello, pequena cidade no sul da Itália, na Costa Amalfitana, aconvite de Domenico de Masi. E foi convidado para participar deuma exposição com sugestões para a reconstrução das torresgêmeas do World Trade Center, destruídas em 11 de setembro porataques terroristas. "Recusei, justificando não ter tempo para isso", disseo arquiteto, em entrevista hoje.Niemeyer rebateu críticas querecebe sobre questões de conforto e acústica em seus teatros,caso do auditório do Memorial da América Latina. A questãoacústica, segundo ele, não cabe ao arquiteto. "Um dos primeiros teatros que projetei foi o deBrasília", contou. "Fiz o projeto em três dias durante ocarnaval. No quinto dia, convoquei um grande especialista emacústica de Berlim, que veio ao Rio, fez o projeto e, comosempre ocorre, ficou responsável por esse trabalho",arrematou. "O projeto que elaborei para Araras, vários anos atrás,nunca sofreu críticas quanto à sua acústica", ponderou. "E, sepor acaso surgissem, não seriam da responsabilidade doarquiteto."Recentemente, ele publicou artigos na imprensareclamando da interrupção de alguns dos seus projetos em SãoPaulo - especialmente a construção de um teatro no Parque doIbirapuera, que completaria seu conceito para o local, e a idéiapara a recuperação do Rio Tietê (que prevê a desativação de umadas marginais). "É evidente que uma obra dessa natureza apresentaproblemas", ele disse, sobre o fato de parecer inviável hoje,com o intenso fluxo viário, desativar uma das marginais."Quando Brasília surgiu, os obstáculos que apareceram erammuito mais graves e o tempo muito mais curto, mas haviadeterminação e, quando isso existe, tudo é possível realizar."Disse que a retomada do projeto de um teatro noIbirapuera, na região à frente da Oca, é necessária paraconcluir a idéia que teve para o parque inicialmente. APrefeitura de São Paulo tinha demonstrado interesse em darseguimento ao projeto. "Muitas idéias surgiram, vagas, perdidasno tempo, sem a continuidade indispensável", criticou oarquiteto.Niemeyer revela uma lucidez assombrosa e não se furta aopinar sobre assunto algum. Declara-se a favor da campanha dosartistas do Oficina, que combatem projeto do empresário SilvioSantos de construir um shopping center no entorno do que é oTeatro Oficina, projetado pela arquiteta Lina Bo Bardi. Há fortereação contra a idéia, principalmente de intelectuais eartistas. "Mesmo sem estar inteiramente a par do problema,estou solidário com eles", afirmou.O desafio de projetar um multiplex em Niterói foienfrentado por ele sem hesitação. "É uma questão complexa (ados cinemas) e o programa que me apresentaram - e eu atendi -previa sete cinemas", conta. Os problemas da nova situação daexibição de filmes, com salas geminadas e afluxo intenso depúblico, ele acha que é uma questão "para os especialistas".Outro projeto inacabado em São Paulo que o deixaparticularmente desolado é aquele que ele idealizou para oantigo DOI-Codi em São Paulo. Ela ressalta que, além dearquitetônica, a obra tem um grande efeito simbólico. "Trata-se, a meu ver, de um protesto indispensável neste momento em que aviolência se multiplica por toda a parte", afirmou.Sobre a polêmica que cerca o projeto de um auditório emRavello - alvo de protestos de ambientalistas, que prevêem umadescaracterização das encostas da região -, ele se mantémindiferente. "Até agora, as informações que tenho recebido domeu amigo Domenico di Masi são que a obra vai ser realizada",afirmou, lacônico. "O resto é com eles."Oscar Niemeyer nasceu no Rio de Janeiro, no bairro dasLaranjeiras, em 15 de dezembro de 1907, na Rua Passos Manuel,26. Sua obra, nesses anos de trabalho intenso, se tornou maisque um anexo intelectual, mas um léxico muito particular dentroda arquitetura internacional, reconhecível seja nas curvas de LeHavre (projeto erguido na França, em 1982) ou na suainsofismável Brasília e a atualização modernista das colunasclássicas.Fez a sede do jornal L´Humanité, em Saint-Dennis; aPassarela do Samba, no Rio de Janeiro; o Memorial JK, emBrasília; a Ponte da Academia, de Veneza (Itália); o Museu doHomem de Belo Horizonte; a sede da Renault, na França; a sede daeditora Mondadori, na Itália; entre outras inúmeras obras.Em um balanço retrospectivio, o arquiteto considera queo período em que trabalhou no Exterior foi o mais proveitoso,por possibilitar-lhe andar "disseminando a minha arquitetura eo progresso da engenharia em nosso país".Recebeu a Ordem de São Gregório das mãos do papa JoãoPaulo II e a Grã-Ordem do Rio Branco do governo brasileiro.Segundo declaração publicada no livro de Jean Petit, Niemeyer,o Poeta da Arquitetura (Fundação Lina Bo e P.M. Bardi), ele sesentiu atraído pelo desafio da forma desde muito cedo."Antes mesmo de ser arquiteto, eu já pensava em talharesculturas no concreto armado", disse. "Sempre me sentiatraído, desde jovem, pelas esculturas gregas e egípcias, aVitória de Samotrácia; gosto das obras de Henri Moore eHeepworth, da pureza de Brancusi, das belas mulheres de Despiaue de Maillol, das figuras esguias de Giacometti."Manteve-se, até hoje, inflexível nas suas convicções eidéias. "Compreendo a crítica de arte, muitas vezes justa ehonesta, mas sou de opinião que o arquiteto deve conduzir seutrabalho de acordo com as próprias tendências e possibilidades,aceitando-as sem revolta ou submissão, sabendo-a não raro justae construtiva, mas sempre sujeita a uma comprovação que somenteo tempo pode estabelecer."

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