Niemeyer é homenageado em Paris

O arquiteto Oscar Niemeyer fala aos borbotões. Às vésperas de viajar para a França, onde é tema de uma grande exposição retrospectiva na Galerie Nationale du Jeu de Paume, em Paris, aberta ao público a partir de hoje, ele desistiu. Nem a homenagem que receberá da Sorbonne na sexta-feira o anima. Ele prefere ficar em seu apartamento no Posto 6, em Copacabana, de onde se avista toda a praia, em primeiro plano, e o desenho das montanhas, a começar pelo Pão de Açúcar, que se perdem em curvas mar adentro."O Rio de Janeiro é uma cidade linda, não é mesmo?", comenta ele, carioca da gema, orgulhoso. A comparação entre o relevo do horizonte com as cúpulas e curvas que caracterizam a obra de Niemeyer é inevitável. "Le Corbusier dizia que eu tinha as montanhas do Rio dentro dos meus olhos. Na verdade, eu as tenho dentro de mim. Prefiro dizer como André Malraux, que tenho a lembrança constante delas."É o próprio Niemeyer quem dirige a conversa, falando do que quer, quando quer. Ele conta que gosta de ficar em seu escritório, na cobertura de um prédio de fachada em curva, que se destaca entre os outros que formam um paredão diante de Copacabana. "Fico aqui pensando, lembrando amigos, chorando um pouco, com uma tristeza doce. Isso é mais importante que arquitetura", ensina ele. "Digo aos arquitetos recém-formados que não basta sair da escola como um bom profissional. Tem de conhecer a vida, os problemas, a miséria e estar pronto a participar, a compreender a vida."Apesar de minimizar a importância de seu ofício, está cheio de projetos e se entusiasma com todos eles, mesmo aqueles que sabe que não sairão do papel. Isso é natural acontecer. "Todo arquiteto tem projetos não realizados, mas há alguns que eu gostaria que fossem. Para o DOI-Codi, em São Paulo, eu tinha previsto um auditório, a cinemateca e uma área de protesto, uma praça rebaixada, onde ocorreriam exposições e manifestações", conta ele. "É uma proposta radical, mas nos assuntos principais eu sempre vou ser radical."Novos projetos - Outro projeto arquitetônico que o anima é o Caminho Niemeyer, a ser construído no centro de Niterói, contornando a Baía de Guanabara. É um conjunto com teatro, um arranha-céu para escritórios e a catedral da antiga capital fluminense, sustentada por colunas em curvas, como se estivesse solta no ar. Há ainda uma capela, pequena, que ficará dentro d?água, a poucos metros do quebra-mar. Para Ribeirão Preto, projetou um teatro e uma quadra de esportes sob a mesma cúpula, com 100 metros de base, com entradas, rampas, simples e funcional. Nada mais Niemeyer.Mas o que o entusiasma nos últimos tempos são suas conversas e a correspondência trocada com o engenheiro José Carlos Sussekind, sobre assuntos que vão de cosmologia ao escritor português Eça de Queirós. "O Eça pintou assim de repente. Era um assunto esquecido que veio à tona, quando a gente lembrou de sua infância, da vida fora de Portugal, tão ligada às raízes, das mais de 300 cartas que ele trocou com os amigos, da sua qualidade de romancista. Eu gosto de literatura e, às vezes, faço arquitetura", brinca ele."Sussekind e eu trocamos cartas que agora vão ser publicadas pela Revan, a mesma que lançou a biografia de Fidel Castro. Gosto de escrever, mas minha linguagem não passa de 50 palavras, é espontânea."A cosmologia sempre o interessou porque lhe dá a dimensão do ser humano. Insignificante, segundo ele. "Basta olhar o céu para ver que o homem é pequeno, o céu nos humilha e mostra que a vida é um sopro, é um minuto que passa rápido", filosofa. Ele também não liga para homenagens nem lê os muitos livros e teses que escrevem sobre sua pessoa e sua obra. "Não quero saber o que escrevem a respeito do meu trabalho. Não quero modificar, não quero influência, quero fazer a coisa como eu gosto. Cada arquiteto tem sua arquitetura. Isso me permite não criticar os colegas. O que eles fazem eu respeito, mas não me interessa. Eu faço é o meu, o modesto, mas é o que eu gosto, sem pretensão, mas com toda liberdade."Prova de quanto esse discurso é verdadeiro, foi a recente passagem pelo Rio do presidente da Fundação Guggenheim, Frank Ghery, e do arquiteto escolhido para projetar a unidade do museu do mesmo nome no Rio, Jean Novel, uma das estrelas da arquitetura francesa dos últimos 20 anos. Os dois fizeram questão de ser recebidos por Niemeyer e tiveram o encontro no escritório de Copacabana. "Não falamos do museu, nosso assunto foi outro", informa Niemeyer. "O Guggenheim não me interessa."Mas é bom lembrar que ele não é personalista, só vê e pensa em sua obra. Pelo contrário. Elogia o Museu de Arte de São Paulo e o próprio prédio onde mora (que antes de ser construído era a casa onde sua família, moradora de Laranjeiras, na zona sul, passava o verão). "Estou aqui há muitos anos, antes de Brasília", lembra. A capital é um divisor de eras na arquitetura brasileira, mas ele considera a Pampulha, em Belo Horizonte, muito mais revolucionária. "Tudo começou lá, sem a Pampulha, também construída por Juscelino Kubistcheck, não teria havido Brasília."História - O que encantou Niemeyer nessa primeira experiência, ainda nos anos 40, foi a união de várias artes. "Foi muito interessante essa idéia renascentista, de chamar outros artistas para colaborar na obra. Na Pampulha foi o Portinari, que fez os painéis de azulejos", rememora ele, avisando que a experiência deve se repetir no Caminho Niemeyer. "Lá as paredes serão de concreto branco, à disposição de pintores, escultores e outros artistas que vão preencher os espaços, como acontecia nos palácios do Renascimento. Para mim, não basta fazer só arquitetura. É preciso uma convivência com todo tipo de gente, uma atividade paralela."Niemeyer só não conta o segredo de sua vitalidade. Completou 94 anos em 15 de dezembro, mas aparenta menos de 70. Sua voz é firme e clara e, embora caminhe com cautela, sobe todo dia um andar de escada para chegar a seu escritório. Fuma cigarrilha, come e bebe de tudo e ainda discute política. "Num momento em que os americanos jogam bomba para todo lado, dizem que a Amazônia é internacional porque é o pulmão do mundo, é preciso um líder que pense nacionalmente. Que coloque uma bandeira brasileira em cada casa."

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