Niemeyer cria escultura para data nacional da França

Oscar Niemeyer apresentou hoje para jornalistas brasileiros e franceses a maquete da escultura que será inaugurada à beira do rio Sena, em Paris, no dia 14 de julho, data nacional da França. A escultura é a imagem estilizada de uma mão estendida no ar, oferecendo uma flor. Em seu escritório debruçado sobre a praia de Copacabana, na zona sul do Rio, falou de seu enorme prazer de realizar um trabalho para aquele país, que o acolheu no exílio nos anos 60. Niemeyer contou que "nos anos 60, o então ministro da Cultura François Mauriac, conseguiu com o presidente De Gaulle uma lei especial para eu trabalhar lá. Morei muitos anos em Paris, de onde tenho lembrança formidáveis", disse o arquiteto. "Se um dia eu tiver que sair do Rio, certamente voltarei para Paris, onde gostava de ficar nos cafés, vendo as pessoas passarem, as mulheres sempre bonitas, às vezes, exóticas. Lá aprendi que ainda existe solidariedade, as pessoas se estimam e gostam de se ajudar." A escultura foi uma encomenda da rede de supermercados Carrefour, que comemora seus 30 anos no Brasil (onde tem 181 lojas) e também por conta do Ano Brasil/França. Niemeyer terá, ainda este ano, outra obra em Paris, esta para o Ministério da Aeronáutica brasileira, um monumento a Santos Dumont, cujo centenário de nascimento é comemorado este ano. Apesar de ter quase 600 projetos espalhados pelo mundo, em mais de 70 anos de carreira, só recentemente começou a mostrar seu trabalho como artista plástico. Ele disse que desenhar como arquiteto o levou naturalmente à escultura. "A arquitetura está na cabeça e a mão é apenas o instrumento. Mas todo arquiteto deve desenhar, deve estudar e ler muito, saber que mais importante que qualquer trabalho é a vida, a família, os amigos", filosofou. "Hoje vivemos num mundo injusto, que devemos lutar para modificar. Sou um homem de esquerda há quase 100 anos (ele completa 98 em 2005) e acredito que o inesperado determina a nossa vida. Não é a arquitetura, a ciência ou qualquer outra coisa feita pelo homem." A escultura do Carrefour em Paris será em metal vermelho. "Tem oito metros de cumprimento por quatro de altura, mas é uma mão estilizada. Se fosse figurativa, não daria essa impressão dessa coisa solta no ar", ensinou. "Porque a arquitetura tem que dar prazer, emocionar, fazer o homem comum, sem acesso aos benefícios do dinheiro, sentir prazer e felicidade quando vê uma obra na rua. Para isso serve a arquitetura, não para mudar o mundo."

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