Niemeyer: 'A vida é pequena e muito dura'

Costumava dizer que escola não era suficiente e que, sem solidariedade, sem conhecer os problemas e as misérias, não adiantava viver

O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2012 | 22h25

O arquiteto Oscar Niemeyer sempre foi surpreendente. Mesmo para quem, nascido depois dos anos 60, sempre viu Brasília plantada no Planalto Central, ele tinha novidades. Como os jovens o cercavam constantemente, para entrevistas ou aulas práticas, ele costumava preconizar: "A vida humana é muito pequena e muito dura e é preciso não desistir dos ideais, pelas mudanças políticas e sociais necessárias. Por isso, temos ainda um longo tempo de luta pela frente", disse ele certa vez a estudantes que o entrevistavam em Niterói.

Isso era dito com entusiasmo por um homem nascido em 15 de dezembro de 1907, num Rio da Belle Époque. Um brasileiro que mudou a arquitetura mundial e incluiu o Brasil na história desta ciência/arte. Que desenhou cidades, paisagens e monumentos, ensinou outros profissionais a criar e viver e, no entanto, afirmava que a arquitetura não era importante. "Digo aos recém-formados que não basta estudar na escola. Tem que conhecer a vida, os problemas, a miséria e estar pronto a participar, a compreender a vida", disse ele certa vez ao Estado. "O homem tem que se interessar pelas coisas, literatura, filosofia, história... não para ser intelectual, para ter uma ideia da vida, que tem que ser vivida com solidariedade, senão não adianta."

Participar da vida brasileira foi uma constante na biografia de Niemeyer, um carioca da gema, que estudou na Escola de Belas Artes da Universidade do Brasil e começou sua carreira com quase 30 anos, ao lado de Lúcio Costa e sob a batuta de Le Corbusier. E que viveu sempre pela esquerda, nunca se furtou a apoiar aqueles em quem acreditava. Foi assim com Fidel Castro, que defendeu mesmo nos momentos mais difíceis; com Leonel Brizola, seu parceiro na construção dos Centros Integrados de Educação Pública (Cieps) e do Sambódromo (uma imagem do Brasil, saída de sua prancheta); Luiz Carlos Prestes, com quem comungou a ideologia comunista; e Juscelino Kubitschek, a quem ele atribuía a origem de sua carreira.

"Tudo começou com a Pampulha, meu primeiro trabalho", disse certa vez, referindo-se ao bairro residencial, com lagoa, igreja, clube e cassino (hoje um museu) construído em Belo Horizonte, nos anos 40, quando Kubitschek era prefeito. "Sem a Pampulha não teria havido Brasília, também construída por Juscelino", continuou, comparando o ex-presidente aos mecenas renascentistas. "Foi muito interessante a ideia de chamar outros artistas para colaborar na obra. Na Pampulha, o Portinari fez os painéis de azulejos."

Ele gostava também de contar como entrou na aventura de construir Brasília, ainda em meados dos anos 50. "O Juscelino chegou à minha casa e disse: ‘Oscar, nós fizemos a Pampulha e agora vamos construir Brasília.’ E lá fui eu correndo para aquele fim de mundo, uma terra hostil, em que até as árvores custavam para sair do chão, como se qualquer coisa as impedisse", lembrou certa vez. "Juscelino não mudou apenas a capital, mudou a natureza daquela área. Hoje, Brasília é uma cidade arborizada, fantástica. Quem mora lá não quer sair."

Dito assim, parece até que Niemeyer sofria de modéstia, falsa ou verdadeira. Pelo contrário, mas ele gostava de se cercar de gente, trocar ideias com amigos e auxiliares, como o engenheiro Carlos Sussekind, seu projetista durante décadas, com quem manteve farta correspondência, já publicada pela Editora Revan. "Falamos sobre cosmologia, literatura, sobre a vida. Basta olhar o céu para ver que o homem é pequeno, o céu nos humilha e mostra que a vida é um sopro, um minuto que passa rápido", costumava dizer.

Em meados de 2004, quando lançou o livro Minha Arquitetura - 1937-2004, em que comentava seus principais projetos, realizados ou não, ensinou o seu método de trabalho. "No meu escritório sou o único arquiteto. Aí estudo sozinho, tranquilo, os projetos que aparecem. E essa tranquilidade, esse isolamento, me permite cumprir melhor as minhas tarefas de arquiteto, com tempo para pensar nelas devagar. E nesses momentos é que surge a solução procurada. A mão... a mão é apenas o veículo para passar ao papel a solução encontrada", escreveu ele. "Com a solução fixada e por mim desenhada (plantas, cortes, etc.), envio meus trabalhos para os escritórios de arquitetura que vão desenvolvê-los, em contato direto comigo. Assim, sobra-me tempo para outras atividades, como a leitura, o contato com os amigos..."

O escritório a que ele se referia fica numa cobertura no fim da Praia de Copacabana, um prédio que se destaca pela cor (verde-clara) e pelas curvas inspiradas na obra dele. De lá, Niemeyer vê toda a orla mais conhecida do Brasil, com o Pão de Açúcar ao fundo e as montanhas sensuais se espalhando mais adiante. Estas curvas não estão em sua obra por coincidência. "O Rio de Janeiro é uma cidade linda, não é mesmo?", comentava para provocar suas visitas. "O Le Corbusier dizia que eu tinha as montanhas do Rio dentro dos meus olhos. Na verdade, eu as tenho dentro de mim", continuava, embora não se esquecesse das mazelas. "Eu sou do Rio, gosto dessa esculhambação, da praia. Nasci aqui, com meus amigos, mas Brasília é mais importante, levou o progresso para o interior."

Seus feitos foram reconhecidos em vida. Perseguido pela ditadura militar, nos anos 60 e 70, obteve licença especial do governo francês para trabalhar lá, onde redesenhou paisagens. Lá, foi homenageado pela Sorbonne, com exposições em museus (a última foi no Jeu de Paume, de Paris). Aqui no Brasil, é reverenciado por universitários, presidentes e sambistas, como os da Unidos de Vila Isabel e da Estação Primeira de Mangueira, que fizeram dele enredo em carnavais diferentes. Isso sem nunca ter deixado de dizer o que pensava e fazer o que achava certo, mesmo se o acusassem de radicalismo. Nessas ocasiões, ele tinha a resposta na ponta da língua. "Nos assuntos principais, eu sempre vou ser radical", avisava.

Foi radical até o fim, pois não se furtava a assinar manifestos em apoio ou contra obras e ideias que repudiava. Assim como sua arquitetura mudou a paisagem brasileira para sempre, sua opinião certamente fará falta quando se discutir o futuro do País. Um país que ele ajudou a projetar e a ser respeitado em todo o mundo.

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