Niemeyer, 100 anos: solidariedade justifica passeio da vida

O arquiteto Oscar Niemeyer, apassos lentos e de braços dados com um bisneto e um ajudante,desceu a rampa da famosa casa das Canoas minutos antes da horamarcada para a festa de seus 100 anos, neste sábado, no Rio deJaneiro. Às 11h em ponto estava sentado ao lado da filha, Ana Maria,e da mulher, Vera Lúcia Cabreira, saboreando uma cigarrilha nopátio da casa que projetou em 1952 para sua moradia e dafamília, em São Conrado, zona sul. "A gente tem que se basear em convicções muito firmes paraaguentar essa luta que a vida representa para o ser humano",disse a jornalistas na casa considerada um dos mais importantesexemplares da arquitetura moderna brasileira, com suas curvas,cercada de vegetação e de onde se avista o mar. "A vida não é justa e o papel principal que justifica umpouco esse curto passeio é a solidariedade", disse. Modesto, depois de espalhar obras arquitetônicas pordiversos países do mundo, Niemeyer afirmou que teve uma "vidanormal". "Um ser humano como outro qualquer, sem nenhuma coisade especial, não sei nem por que durei tanto", afirmou a umgrande grupo de jornalistas, enquanto recebia os convidadospara a festa. O bisneto João, que mora com o arquiteto e o acompanhouaté a casa das Canoas, contou que ao acordá-lo nesta manhã lhedeu os parabéns e Niemeyer desconversou: "Parabéns, por quê?" Mesmo depois de ter declarado que completar 100 anos é uma"bobagem", se mostrou satisfeito com a comemoração. "Eu sintoprazer, eu fui procurado, os amigos estão presentes, penso nopassado, porque a idade obriga, nos amigos que se foram, nafamília", disse com nostalgia, entre um gole e outro dechampanha rosado. O arquiteto carioca, que ficou famoso nos anos 1940 pelosprojetos que se tornaram cartão-postal de Belo Horizonte, nobairro da Pampulha, e, dez anos mais tarde, com a construçãodos edifícios da nova capital federal, em Brasília, deixou suamarca em diversos países, como a França, onde viveu nos anos1960, exilado pela ditadura no Brasil. Projetou a sede doPartido Comunista Francês e o Centro Cultural Le Havre. Mas entre familiares e amigos próximos a permanenteatividade do artista brasileiro mais reconhecido no exterior,que recebeu o prêmio Pritzker de Arquitetura em 1988, é sempredestacada. "Ele continua trabalhando e que ser tratado como uma pessoanormal, mas é difícil porque uma pessoa chegar aos 100 anostrabalhando com essa cabeça fantástica que ele tem é algo quenão sei quando a gente vai ver de novo", disse Carlos Niemeyer,neto do arquiteto, que entre os projetos atuais que assina estáo Centro Cultural Internacional Niemeyer de Avilés, suaprimeira obra na Espanha. O arquiteto falou de suas obras, mas como de costume o tompolítico esteve presente, lembrando os pobres, a necessidade dejustiça social e que acredita que a América Latina continua seorganizanco contra o capitalismo decadente. O escritor Ferreira Gullar, que destacou a dedicação doarquiteto como amigo, disse que ele é um exemplo para o Brasil."Só não pode ser um exemplo como artista, porque é um gênio,bom até pode, mas é difícil alcançar".

MARIA PIA PALERMO, REUTERS

15 de dezembro de 2007 | 16h52

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