Nicolau, o menino Maluquinho da frança

Garoto é um misto de Hulot, Louis de Funès e até o personagem de Ziraldo

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2010 | 00h00

 

Ao Caderno 2, o diretor Laurent Tirard já contou como foi emocionante, para ele, a sessão de O Pequeno Nicolau no Rio, durante o recente Festival Varilux do Cinema Francês. O filme foi exibido para a comunidade, na favela do Vidigal. O meio social não podia ser mais diferente e as crianças do Vidigal riram e até choraram com Nicolau, como a garotada francesa, que transformou o filme num grande sucesso no país de origem, com mais de 5 milhões de espectadores. O filme é muito bom. Tem ação, humor, atores perfeitos.

Sandrine Kiberlain, a Madomoiselle Chambon, disse ao Estado que seu papel de professora não lhe oferece o mesmo potencial do filme de Stéphane Brizé, mas foi maravilhoso dar vida a um personagem que faz parte do patrimônio cultural francês. E sua filha de 10 anos adorou O Pequeno Nicolau. "É o filme que eu gostaria de ter visto aos 10 anos", disse o próprio diretor. Laurent Tirard lembra-se que também tinha 10 anos quando seu pai o levou para ver Jour de Fête, Carrossel da Esperança, o longa hoje clássico de Jacques Tati. O pai havia amado o filme e transmitiu este amor para o filho. Quando viu Meu Tio, de novo de Tati, Tirard já era um pré-adolescente, mas admite que teve um choque.

As tiras de René Goscinny e Jean-Jacques Sempé nunca foram um projeto do coração para ele, mas quando seu produtor lhe propôs que fizessem o filme, Tirard admite que ficou impressionado consigo mesmo, por nunca haver pensado antes nisso.

Na verdade, Nicolau é ele próprio, como diz o diretor, que não pensava fazer um filme tão autoral com um personagem tão conhecido do público. No começo do filme, o garoto não sabe o que esperar da vida. No final, está convencido de que quer ser um contador de histórias.

"Nicolau sou eu", pode dizer o diretor, parafraseando Gustave Flaubert, a propósito de sua Madame Bovary. Tirard admite que seu avô, que adorava contar histórias, foi decisivo na sua formação, mas ele também diz que se inspirou em sua mãe para criar a mãe do pequeno Nicolau. As duas compartilham a preocupação com a casa, a família e a opinião dos outros. "Mas não contem para ela que fiz isso", diz o diretor brincando.

Seu grande desafio, ele admite, foi criar um roteiro que não fosse episódico, mera justaposição de situações dos livros. Tirard concebeu um roteiro original, que agradou ao próprio Sempé, que disse temer pela adaptação - e por isso não quis se envolver -, mas no final gostou do que viu. A gravidez da mãe, as consequências disso na vida familiar e o grupo de amigos na escola, cada um com suas características - qualidades e defeitos - compõem um filme infantil não propriamente aventuresco, estilo Goonies, de Richard Donner, mas mais interiorizado e até intimista, como o Menino Maluquinho, de Ziraldo, transposto para o cinema por Helvécio Ratton.

Palhaço. O diretor afirma que fez o filme tentando voltar ao passado, não apenas revivendo o Nicolau que era seu companheiro, nos livros, como menino, mas todo um cinema francês que, de alguma forma, se perdeu. E também não apenas o sofisticado Tati, de M. Hulot. Sua ideia era não elitizar o filme, o que ele não faz, porque situa O Pequeno Nicolau em algum ponto entre a solidão e incomunicabilidade de Hulot e o apelo popular de comediantes mais "terra a terra", como Louis de Funès. "Ele foi o grande palhaço da minha infância", avalia Tirard, que guarda um carinho muito grande pelo parceiro em tantas comédias clássicas. Mas, assim como se pode comparar O Pequeno Nicolau ao Menino Maluquinho, outra influência aparece - Tirard viu A Guerra dos Botões, a primeira versão, por volta de 1960, de Yves Robert. É esse cinema que O Pequeno Nicolau busca recuperar.

O menino não é o enfant-roi, o reizinho da casa, como com frequência ocorre com Goscinny e Sempé. Nos livros, Nicolau vive num mundo ideal, resguardado pela família. Mesmo a experiência da escola parece muitas vezes idealizada, tudo de forma a compor uma visão idílica da infância. Era o que Tuirard queria evitar. Sem trair o personagem nem o espírito dos livros, ele tenta criar um conceito mais contemporâneo do que seria o garoto típico, não ideal. Milhões de franceses aprovaram o resultado. Agora, o Brasil.

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