Nick Hornby lança seu livro mais elaborado

Como ser uma boa pessoa? A questão, debatida com ironia e um charme quase ingênuo, é o tema do novo livro de Nick Hornby, o escritor mais hype do momento. How to Be Good, que saiu em julho no resto do mundo e deve ser lançado no Brasil em outubro pela editora Rocco, foi recebido por um público fiel como um disco da Madonna ou Oasis, com aquelas habituais filas que varam a madrugada e tardes de autógrafos em mega-lojas.Seguindo o estilo de seus livros anteriores, How to Be Good também é narrado em primeira pessoa. Agora Hornby é a voz de Katie Carr, médica, casada, que mora com dois filhos e um marido ranzinza. A personagem feminina é na verdade o "homem" da casa, no sentido mais tradicional - e machista - do termo. Ela trabalha, paga as contas, enquanto o marido fica em casa e cuida das crianças.Na primeira frase do livro, Katie confessa ao leitor que acaba de pedir o divórcio. Pelo telefone celular. Dentro do carro, no estacionamento do supermercado. Simultaneamente, seu marido David conhece um guru - chamado GoodNews, ou Boas Novas - e muda sua atitude diante do mundo. Seu comportamento sarcástico se transforma da noite para o dia e ele passa a ser uma "boa pessoa". Isso inclui mudança de hábitos, caridade e altruísmo acima dos limites.Ao contar a história, no entanto, Hornby foge dos padrões e desvia das soluções fáceis e conclusões maniqueístas. O livro segue, em certos trechos, um formato de parábola, mas não fica restrito a interpretações definitivas. A capacidade de expressar o "inexpressável" em Hornby é uma de suas maiores qualidades. Ele transforma o leitor em cúmplice, permitindo que o texto se torne quase uma descrição do próprio raciocínio de quem o lê, na medida em que diálogos e reflexões são fundidas com naturalidade. Essa pode não ser a melhor história já escrita por Hornby, mas com certeza é seu texto mais elaborado, mais profundo, mais introspectivo e, surpreendentemente, menos bem humorado.Geração X - O primeiro livro de Nick Hornby foi uma deliciosa coletânea de crônicas de amor ao futebol e ao seu time de coração, o Arsenal. A partir de Febre de Bola, ele virou um expert em retratar a condição humana e os relacionamentos do mundo atual. Seus personagens são pessoas "legais", "normais", repletas de dúvidas e idiossincrasias como todos nós.Embora divertidos e simpáticos, os homens e mulheres de Hornby sofrem de uma espécie de complexo de Peter Pan ao contrário: se esforçam para crescer, se firmar profissionalmente e virar modelos de tudo aquilo que aprenderam ser correto quando eram crianças. Mas acabam se decepcionando quando percebem que não passam de crianças grandes, obrigadas a viver em um mundo repleto de problemas adultos sem a maturidade necessária. Formam uma geração sem rótulos - ou com excesso deles -, sem metas definidas, buscando uma felicidade que parece não estar em nenhum lugar. Uma geração "X", como rotulou outro novo escritor de língua inglesa, o canadense Douglas Coupland. Superstar - Na Inglaterra, Hornby atingiu recentemente status de superstar, fato raro na literatura moderna ou em qualquer tipo de arte que não esteja nas telas do cinema ou nas paradas musicais. Ironicamente, o encontro de seu excelente texto com esses dois mundos acabou por detonar o "fenômeno Hornby". Seu primeiro romance, Alta Fidelidade, retrata a vida e os relacionamentos de um dono de loja de discos decadente em um texto embalado por muita música. O livro chegou às telas pelas mãos do diretor Stephen Frears e do ator John Cusack, em uma comédia bastante divertida e perfeita para traduzir ao grande público o valor do escritor. O único defeito é que o excesso de citações musicais fez todo mundo pensar que Hornby só escreve livros sobre o assunto, uma grande injustiça.Mães solteiras - O estilo de How to Be Good é mais próximo de seu segundo romance, Um Grande Garoto, que tem menos referências e mais dúvidas a serem resolvidas. O enredo conta a história de um homem que inventa um filho apenas para frequentar reuniões de pais e mães solteiros, segundo ele, ótimo lugar para conhecer mulheres interessantes e disponíveis. O livro também já foi vendido para Holywood e, assim como ocorreu em 1997 com a coletânea Febre de Bola, deve chegar às telas.Além dos romances, Hornby escreve crônicas para as revistas Esquire e Time Out, e para os jornais The London Sunday Times e The Independent. Hoje, ele é a figura literária mais próxima de se tornar um porta-voz da geração de homens e mulheres de vinte, trinta e quarenta e poucos anos.Mas ler How to Be Good não é obrigatório apenas para quem pertence a qualquer uma dessas gerações. É um prato cheio para todos que desejam entender melhor a confusa lógica dos relacionamentos e conflitos existenciais do fim do milênio. Hornby parece conhecer a todos nós, o que o torna um guru quase tão poderoso quanto o próprio GoodNews.

Agencia Estado,

06 de agosto de 2001 | 11h12

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