Ney Latorraca traz a SP monólogo "3 X Teatro"

Com popularidade garantida numa carreira de sucesso no teatro e na televisão, Ney Latorraca vinha sentindo uma certa saudade da insegurança e das dificuldades enfrentadas nos velhos tempos de ator iniciante. Sob direção de Édi Botelho, ensaiou o primeiro monólogo de sua longa carreira, 3 X Teatro, que estreou no início do ano, em horário alternativo, com apresentações às terças e quartas, no Teatro Glória, no Rio. Em junho, o espetáculo foi transferido para o horário nobre e, a partir de amanhã, inicia temporada na sala B do Teatro Alfa."Tenho 36 anos de carreira e passei 12 fazendo Irma Vap, ou seja, um terço de minha carreira; é muito tempo numa peça só", comenta Ney. O desejo de renovar-se no palco num esforço de interpretação exigido por um grande autor levou-o ao monólogo que reúne textos de Chekhov, Fumar Faz Mal à Saúde; Pirandello, O Homem da Flor na Boca; e Jean Cocteau, O Mentiroso. "Não é um espetáculo voltado para o meu umbigo, mas sim um desejo de retornar ao palco interpretando o texto de um bom autor, como fiz muitas vezes ao longo de minha carreira."Latorraca aprovou ainda a concepção do diretor que, segundo ele, costura com inteligência textos de estilos muito diferentes. "Os três tratam essencialmente das dores e alegrias de seres humanos e isso é universal", argumenta. O humor dá o tom do primeiro texto, o humor característico do autor, quase triste, criado por meio de situações e personagens patéticos, sonhando com uma grandeza que está longe de alcançar.Fumar Faz Mal à Saúde tem como protagonista um homem obrigado pela mulher autoritária a dar uma conferência sobre os malefícios do tabaco, mas ele aproveita a platéia para queixar-se da vida. "É um homem medíocre, divido entre o medo e o ódio da mulher", diz Latorraca. "Ele a culpa o tempo todo pelo inferno de sua vida, mas a incapacidade de mudar está dentro dele", afirma o ator. "Conheço muitas pessoas como ele, sempre reclamando da vida e creditando aos outros os seus fracassos pessoais."A atmosfera é outra em O Homem da Flor na Boca. Se no primeiro o ator fala diretamente com a platéia e pode até brincar com o público, no texto de Pirandello ele se concentra no drama vivido pelo personagem: um homem que, diante da proximidade da morte, descobre encantamento nas pequenas coisas da vida. "É um texto bonito e transformador, que fala com sabedoria sobre a importância de valorizar pequenos atos cotidianos, a deixar de lado vaidades bobas", observa. "E tudo isso dito não de forma banal, mas com a elaboração poética de um autor com o talento de Pirandello."O Mentiroso, de Jean Cocteau, encerra o espetáculo. "É um texto no qual o autor contrapõe verdade e mentira e, entre os três, o mais próximo do universo do ator", comenta. "Afinal, em última instância, fala sobre a representação." Latorraca usa o mesmo figurino nos três personagens, assim como permanece no palco o principal elemento do cenário, um relógio sem ponteiros. "É um espetáculo simples, sem pirotecnias."O santista Ney Latorraca formou-se pela Escola de Arte Dramática (EAD) ainda sob direção de Alfredo Mesquita. "Fui o único aluno a conseguir um prêmio por freqüência, um livro sobre o cubismo, dado pelo dr. Alfredo." Mas não foi só. Latorraca conseguiu nota 10 em drama na avaliação do exigente diretor Ademar Guerra. "Eu era tão vaidoso que o dr. Alfredo, de propósito, sempre dizia meu nome errado, com variações que iam de Ary ou Rui a Ney Latica."Shakespeare, Lorca, Nélson Rodrigues, Plínio Marcos, Braulio Pedroso, Leilah Assumpção - muitos foram os autores cujos personagens Latorraca levou ao palco antes do estrondoso sucesso de público, contracenando com Marco Nanini, sob direção da amiga Marília Pêra. "Uma peça como Irma Vap, que lota todos os dias, durante anos, até acostuma mal", diz. "A realidade teatral brasileira é dura; já investi e perdi muito dinheiro no teatro."Isso não siginifica que o ator aprove essa realidade. Latorraca declara-se decepcionado com a atual condução da política cultura no País, baseada unicamente nas leis de incentivo. "O artista está de pires na mão", protesta. "Fiz campanha para Fernando Henrique, da mesma forma como lutei contra a ditadura, mas hoje não apóio mais candidatos." E sua crítica a FHC não se limita ao campo da arte. "O salário de médicos e professores é miserável, o sistema carcerário é vergonhoso", diz. "Será, meu Deus, que teremos de novamente cantar Carcará ou encenar Roda Viva?"3 X Teatro - Direção Édi Botelho. Duração: 1h10. Sexta e sábado, às 21 horas; domingo, às 19 horas. R$ 25,00 e R$ 30,00 (sábado). Teatro Alfa. Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, tel. 5693-4000. Até 24/9.

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