Neto de Pinochet revê ditadura do vovô-general

No dia 5 de outubro, no CaféLiterário de Providencia, Chile, uma pequena família latinareuniu-se para o lançamento de um livro de um dos seus caçulas,Rodrigo. Seria um sarau literário comum não fosse pelo sobrenomedessa família: Pinochet. O cortejo tinha ao centro Rodrigo Andres Garcia Pinochet(o autor do livro em questão, Destino), e sua avó, LucíaHiriart, mulher do general que comandou o Chile com mão de ferronas últimas três décadas do século 20. Nenhuma editora do Paísassumiu o risco de publicar as memórias revisionistas do neto dePinochet, de apenas 25 anos. É uma edição do autor.O livro centra-se em dois acontecimentos dos quaisRodrigo foi co-protagonista: um atentado em 7 de setembro de1986, em Cajón del Maipo (quando ele tinha apenas 10 anos eestava na comitiva do avô); e a prisão do general Pinochet emLondres, em 1998.Rodrigo qualificou o livro como "um testemunho simplese direto" do que vivenciou ao lado do avô. Não é tão simples. Oneto de Pinochet tenta transformar uma sangrenta ditadura em umamera questão passional, de ódios exacerbados, protagonizadas porum homem comum e seus invisíveis e sanguinários inimigos. "Rodrigo, eu não assumi a condução do país por umaambição pessoal, e tampouco pretendi agarrar-me ao poder pelaforça", diz Pinochet ao neto. "O tempo em que estive a mandoda nação foi aquele que estabeleceu a Constituição, votada peloschilenos, e era o necessário para completar a reconstrução doPaís. Como militar, só desejo o bem-estar de minha pátria e é oamor a ela que me faz estar orgulhoso da minha nação. O Chiledecidia em plebiscito se eu continuava no poder. Não foi assim,e cumpri com o estabelecido, tal como o fiz ao longo de todaminha vida."O ex-ditador Augusto Pinochet está sendo processadodiretamente como acobertador dos 18 seqüestros e 57 homicídiosatribuídos à Caravana da Morte, em 1973. Em suas costas, repousaa responsabilidade por centenas de desaparecidos políticos,torturas e supressão de direitos civis.A crueldade adicional é que o velho general, nãosatisfeito em vender publicamente a imagem de que fez tudo"para completar a reconstrução" do seu País, também mentiu emcasa, turvando a visão dos seus entes queridos. Rodrigo Pinochetmostra uma cegueira constrangedora em seu livro, e ele só tem 25anos. Pinta a si mesmo como herói de uma causa justa eexime-se de responsabilidade pela barbárie que perpetrou.Rodrigo Pinochet confessa que tinha dúvidas sobre o avô, quaseao final do livro. Mas é convencido pela retórica de um homemdoente, incapaz de remorso pela dor que causou aos concidadãos.Objetivamente, o livro colabora com poucos subsídiospara a História. Seu relato do atentado à Mercedes do general em1986 é épico, mas completamente artificial, já que Rodrigo sótinha 10 anos à época do atentado e recolheu os detalhesprovavelmente das fontes do Exército.Para Rodrigo, a prisão de Pinochet só aconteceu emLondres porque seu avô já não era comandante em chefe doExército, mas somente senador vitalício. Ele também não sabe ascircunstâncias da prisão de Pinochet na Inglaterra, já queestava no Chile na ocasião e recebeu a notícia do senador JulioLagos.Pinochet ficou 503 dias na Inglaterra, à espera dadecisão judicial que deixaria, enfim, com os chilenos o direitode julgá-lo pelos seus atos no poder. O relato oficioso dospreparativos triunfais para o retorno de Pinochet sãoreveladores, em alguns momentos.Por exemplo: Rodrigo conta o episódio do presenteenviado ao general por Margareth Thatcher, e que foi entregue aPinochet pelo advogado Michael Kaplan. Era um pequeno prato deprata, cujo símbolo era a representação da vitória da armadainglesa frente aos espanhóis. Curiosamente, foi um juiz espanhola pedir a extradição e o julgamento de Pinochet.Havia apreensão de Pinochet sobre um recurso legal deoutros países europeus - caso da Bélgica -, que o impediria deretornar ao Chile. Houve também uma mudança de rumo, ordenadapela Argentina, quanto ao uso do seu espaço aéreo, o que obrigouo avião do general a novo trajeto."Era uma ação tão desnecessária e carente detranscendência que não lhe demos maior importância, porém aquilorefletia, a meu ver, a recente chegada da esquerda ao poder naArgentina", avalia Rodrigo. Talvez fosse apenas um sinal de queaquele pedaço da História que viajava no avião envergonhava todoum continente.

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