Netinho será o primeiro apresentador negro desde Simonal

A partir de março ele vai comandar um programa de televisão. O que poderia ser apenas um índice de sucesso, no caso de Netinho revela uma incômoda realidade: ele é o único negro apresentador de um programa nacional na televisão brasileira. Um desafio - que prefere chamar de responsabilidade - que encara com a tranqüilidade de quem costuma ver dar certo os projetos que abraça. José de Paula Neto, o Netinho, foi bancário antes de ser líder do grupo de pagode Negritude Júnior. Hoje, esse músico criado em Carapicuíba, uma das regiões mais pobres da grande São Paulo, é também dono de uma empresa de comunicação visual, da grife de moda jovem 100% Cohab e da franquia de salão de beleza Fashion Hair. Quando se apresenta a desconhecidos, ele prefere ressaltar outras credenciais: a de embaixador do Fundo Cristão para Crianças e a de fundador do projeto Família Negritude, que cuida da educação de 1200 jovens carentes. Todos os negócios que mantém são fonte de renda para obras de cunho social. Durante pouco mais de uma hora, entre reuniões com assessores, o músico falou ao Jornal da Tarde em um confortável escritório em Santo Amaro. Jornal da Tarde - Você diz que fazer um programa de qualidade é uma obrigação. Por quê? Netinho - Acho que o meu povo quer ver na tevê alguém com quem se identifique. Desde Wilson Simonal, que fazia programa de música nos anos 60 (Show em Si-Monal e Simbora), não há um negro trabalhando como apresentador. Acho que a Record, ao me convidar, está sendo corajosa e, de certa forma, pioneira.O programa vai ser voltado para os negros? Não. Vai ser um programa semanal de variedades, com auditório. A diferença é que vamos receber as etnias com mais naturalidade, coisa que em outros programas não acontece. De maneira geral a tevê não enxerga a beleza negra como algo que mereça ser apreciado. A prova disso é que, até então, nenhum negro tinha sido convidado para ser apresentador. E olha que existem vários com muito público no país, não é? Não sou o único. Por falar em beleza: Existem grupos que defendem que as adolescentes negras devem ser estimuladas a não alisar o cabelo porque precisam se achar bonitas como são. Você incentiva esse tipo de atitude no projeto Família Negritude? Não sou um líder de movimento negro. Eu me preocupo é com a educação. Não é o cabelo liso ou enrolado que vai dar a oportunidade de uma menina ser jornalista ou médica. É o conhecimento. O grande objetivo do projeto é que todas as crianças da periferia, negras ou brancas, tenham acesso à escola e a aulas de reforço, para que possam ter na vida as mesmas chances que qualquer pessoa. O preconceito dificulta o ingresso no mercado de trabalho? É claro que sim. O problema é que quem contrata no Brasil é branco e tende a dar preferência a quem é igual. Por isso sou a favor de que, assim como nos Estados Unidos, exista aqui uma lei que obrigue as empresas a reservarem vagas para os negros. Pelo menos por enquanto isso é necessário. Depois da abolição da escravatura deveriam ter feito uma política de educação para os negros. Os índios tiveram a Funai para defender seus interesses, não é? É até engraçado: italianos e asiáticos ganharam terrenos no país, mas os negros não. O resultado disso é que eles foram viver nos morros, onde estão até hoje vivendo nessa pobreza que acaba sendo hereditária. O que eu quero ver é um negro virar dono de banco, de emissora de tevê ou de rádio, presidente do Brasil. A educação foi muito importante na sua vida? Foi. Me formei no segundo grau fazendo curso supletivo. Sempre pensei no meu futuro, sabia que só eu poderia definir como ele seria. O mundo está cheio de negros coitados, que dizem que não conseguem isso ou aquilo, mas que gastam muito dinheiro com cigarro e bebida, ou com tênis e coisas assim, em vez de pagar uma escola particular.Você já sofreu preconceito? Claro que sim. Quando eu trabalhava em banco atendia clientes ricos que muitas vezes me humilhavam. Eu não ligava muito porque sempre pensei mais à frente. É isso o que procuro ensinar aos meus sete filhos. Eles estudam em escola particular e às vezes chegam em casa chorando porque sofreram discriminação. Mas eu falo para eles que a vida é assim mesmo, que eles tem de lutar. Vai fazer o quê? Parar de estudar para não passar por preconceito? Se eu tivesse tido uma atitude de revolta não teria conseguido tudo o que consegui na vida. O pagode e o axé são apontados atualmente como genêros empobrecedores da música brasileira. O que você acha disso? Concordo que tem muita coisa ruim no pagode. Mas também tem muita coisa boa, como em qualquer movimento musical. Só me incomodo com as críticas que são feitas por pessoas elitistas, que não entendem a essência da periferia. O que é a essência da periferia? É uma coisa que só conhece quem já viu a pobreza de perto, já pegou ônibus lotado, fez as compras do mês contando os trocados, foi para os bailinhos funk no fim de semana, saiu na rua e viu um corpo estirado no chão. Quais são seus planos musicais para 2001? Vou gravar um disco ao vivo com o Negritude e, se der tempo, colocar em prática um projeto antigo que é gravar um disco solo resgatando músicas de Lupicínio Rodrigues (cantor e compositor gaúcho, autor da canção Esses Moços, morto em 1974). Descobri as músicas dele e me identifiquei muito. Ele tinha uma maneira profunda de ver as coisas. E quanto aos projetos sociais? O maior deles é tocar a construção da sede do Família Negritude na Cohab de Carapicuíba. Quando ela estiver pronta vamos atender mais de 3 mil crianças. Estamos só aguardando verba do BNDES para começar. Quero fazer algo pelas crianças de Angola, que são mutiladas e vivem em condições miseráveis. Eu me choco com as coisas que vejo na tevê, não consigo olhar para tudo isso e ficar normal! Suas qualidades ficaram aparentes nessa entrevista. Qual é o seu maior defeito? Acho que é a sinceridade. Eu falo tudo o que penso. Isso incomoda às vezes.

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