Netinho quer ser o Bill Cosby da televisão brasileira

Se nos Estados Unidos celebridades como Bill Cosby e Will Smith tiveram espaço garantido na grade de programação das redes de TV, no Brasil, em mais de 50 anos de televisão, um negro jamais foi protagonista na teledramaturgia. Netinho de Paula, 32 anos, ex-vocalista do grupo de pagode Negritude Jr., há tempos batalha para mudar essa situação. Foi dele a idéia de fazer o seriado Turma do Gueto, que a Record estréia em outubro, com maioria negra no elenco. "Tenho esse projeto desde 1999. Bati na porta de várias emissoras, mas nunca ninguém tinha bancado nada até agora", revela. "É incrível que, em um país tão mestiço como o nosso, negro só faça papel de empregado."Engajado, há muito que Netinho batalha pela causa. Há oito anos, o cantor atende 1.200 crianças carentes da Cohab de Carapicuíba no projeto Casa da Gente (ex-Família Negritude, mudou de nome devido à saída de Netinho do grupo). Para tirar as crianças de períodos ociosos, o projeto oferece aulas de informática, teatro e esporte. Em um deles - chamado Cestinha, que mantém em parceria com a ex-jogadora de basquete Hortência - ele atende 600 crianças.Em entrevista concedida ao JT por celular, Netinho fala sobre sua batalha para realizar o seriado A Turma do Gueto.Como surgiu o projeto? Netinho - Pensei nesse projeto em 99, quando, por causa do meu trabalho no Negritude, comecei a ter acesso aos canais de televisão. Tive o programa com o pessoal do pagode na Globo. Anos mais tarde, ganhei o quadro Princesa na Record e, a partir daí, acabei apresentando o Domingo da Gente na mesma emissora. Há um ano e meio, conheci Laura Malin, uma roteirista competente, que se interessou pelo projeto, mergulhou nele e no universo da periferia brasileira. E então começamos a escrever e a pensar nos enredos juntos.Três anos para concretizar um projeto é um tempo bastante longo, não? É mesmo. E por pouco o projeto não saiu. Bati com ele em várias emissoras, que sempre recusaram. Até que neste ano, meu contrato venceu na Record e tive uma proposta para ir para outra emissora. E, para renovar o contrato com a casa, coloquei como condição a realização desse programa. E então eles aceitaram.Por que você acha que teve tantas dificuldades? Seria preconceito da direção das emissoras? Não exatamente. O que acontece é que normalmente o diretor, o executivo de televisão, quer ou tem mais facilidade para retratar seu próprio universo. E como a grande maioria deles é branca, descendente da classe média, acredito que normalmente preferem retratar esse universo familiar a eles.Diria que "A Turma do Gueto" é um programa feito só para negros? De forma alguma! Tem atores e papéis de todas as raças. A única diferença é que revertemos a proporção. Normalmente, as novelas apresentam protagonistas brancos de classe média alta e um núcleo com negros e pobres. Em A Turma do Gueto, os principais personagens são negros, interpretados por atores ou personalidades negras.Que cuidados vocês estão tendo para retratar essa realidade? Vamos tocar sim em feridas como o tráfico, as filas nos hospitais, a dificuldade do transporte público. Mas nada de panfletagem.E a expectativa com o Ibope? Muito grande. Quero que dê pelo menos 10 pontos no Ibope, o dobro da audiência nesse horário atualmente. Só assim poderemos estender o projeto, de 4 meses para um ano. Tenho medo de que se o programa não der audiência e for cancelado os negros demorem mais 50 anos para ganhar um novo espaço na televisão brasileira.

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