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Nero e a lira

O que mais precisa queimar para que a gente perceba que o patrimônio se vai para sempre?

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

18 Novembro 2018 | 03h00

O Brasil ficou chocado com o incêndio do Museu Nacional no Rio de Janeiro em 2 de setembro de 2018. Só diante das chamas terríveis e do patrimônio desaparecido para sempre que alguns devem ter percebido que nunca tinham ido ao espaço museológico agora perdido. Eu já tinha escrito o mesmo sobre os riscos da nossa Biblioteca Nacional e do seu acervo inestimável em condições de risco similar. Aqui em São Paulo, é o caso do Museu do Ipiranga, fechado há tanto tempo. Perde o público, perde a cultura e empobrecemos em um campo já abalado da memória. Até quando? O que mais precisaria queimar no Brasil para que a gente percebesse que patrimônio é algo que se vai para sempre? 

O descaso tem precedentes terríveis. Em 1978, um conjunto inestimável de quadros virou cinzas no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM). A confiança na capacidade brasileira de guardar arte ficou abalada internacionalmente. Patrimônio científico foi carbonizado várias vezes: a coleção do Instituto Butantã em São Paulo e do Museu de Ciências Naturais da PUC de Minas Gerais. Coleções insubstituíveis torraram por completo. A Cinemateca Brasileira se foi com muitos filmes fundamentais e únicos. O Museu da Língua Portuguesa ardeu em chamas. O teatro Cultura Artística, o Liceu de Artes e Ofícios e até arte recente como a tapeçaria de Tomie Ohtake no Memorial da América Latina: somos o país que usa cultura como material de combustão. Nenhum Nero foi indiciado, ninguém responde, nada se faz com tantos e repetidos avisos trágicos. É uma política de terra arrasada de resultados eficazes e criminosos. 

Destruição é um fantasma que nos assombra. Mesmo aquilo que funciona e bem corre o risco do desamparo. A Sala São Paulo enche de orgulho os paulistas e brasileiros. A Osesp é uma joia esculpida com trabalho, talento e muito sacrifício. Ela chega aos 20 anos como uma reunião de muita gente empenhada. Temos também os 50 anos do Festival de Campos do Jordão e os 25 anos do Coro da Osesp. Atrás dos números arábicos simples, há uma epopeia rara de histórias. Manter algo do padrão da Osesp e da Sala São Paulo em um país como o Brasil é quase um milagre. A qualidade material da sala, o esforço de todos e a educação de um público fiel. Arthur Nestrovski chega aos dez anos como diretor artístico, apenas para citar um nome importante entre tantos abnegados. Milhares de estudantes receberam ingressos e puderam aproveitar a fina flor da música brasileira e internacional. Marin Alsop encerra anos de colaboração como regente titular e virará regente de honra em 2020. Funcionários, músicos, técnicos, muitos colaboradores e, acima de tudo, o público que cresceu com a Osesp: há uma família grande, bela e, ao mesmo tempo, frágil. Artistas serão convidados em residência como o notável Paulo Szot. Compositores como Huang Ruo trarão sua verve única para nossa cidade. Em meio a tantas coisas ruins e difíceis no Brasil, escutaremos a Paixão Segundo São Mateus de Bach, regida por Nathalie Stutzmann. Haverá homenagem a Marlos Nobre, nosso genial pernambucano que chega aos 80 anos de vida em 2019. Flores raras cultivadas no deserto do descaso.

O esforço em manter a Osesp e todos os projetos correlatos fica ainda mais notável se pensarmos que outras expressões musicais foram silenciadas, como a Banda Sinfônica do Estado de São Paulo. Diferentemente de uma máquina que é desligada em crise e religada depois, a dissolução de um organismo vivo musical é um dano irreparável (e grave) que dificilmente pode ser refeito. Imagine músicos de primeira linha com currículo forte se vendo na triste situação de não ter renda nem espaço para tocar. 

A cultura brasileira é assim. Muita coisa queimou, projetos foram descontinuados, outros sobrevivem em estado precário e todos aguardam poderes sensíveis ao papel insubstituível da cultura na definição da cidadania. A crise se abateu sobre todos e nós sabemos que contenções deveriam ser feitas, ainda que os cortes na área cultural fossem mais expressivos do que a própria realidade do encolhimento de verbas. Quando eu vejo o montante do fundo partidário em comparação ao estado precário de orquestras e museus, sou percorrido por uma dor muito forte. 

O que mais terá de silenciar, queimar, desaparecer ou ficar no passado até que acordemos? Quantos artistas deixarão de comunicar seu talento com uma sociedade que necessita desesperadamente de criação e sensibilidade para pensar mais alto e melhor? Alguém aqui acha coincidência que a economia mais forte da Europa, a Alemanha, também seja uma terra de forte investimento privado e público na música e nas artes? O que mais precisa desaparecer para sempre para que governos e eleitores descubram o valor do nosso patrimônio material e imaterial? 

Para nós, pessoas sem poder, resta prestigiar o que ainda existe, visitar mais nossos museus, cobrar dos políticos que elegemos há pouco e valorizar com alunos e filhos os muitos heróis de uma resistência cultural. O tempo está passando e a sorte está lançada. Bom domingo para todos nós. 

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