Nenhum sonho ou preocupação

Uma preocupação cancela a outra. Procurava - e procuro - um gravador desses de fita, tape, para entrevistas e não encontrava. Tudo é digital, agora. Os antigos ainda existem à venda? Como achar um? Súbito, vi que este problema era nada diante de outro, este sim, grave. Desde os anos 70, quando meu romance Zero foi proibido pela ditadura militar, eu não via um festival de sandices como o da semana passada, quando se provocou celeuma em torno de um conto meu, escrito há 27 anos, adaptado para teatro e vídeo e traduzido em não sei quantas línguas. Obscenidades Para Uma Dona de Casa está incluído na antologia Os Cem Melhores Contos do Brasil, de Ítalo Moriconi. Há na história solidão, humor, sensualidade. Indicado para alunos do ensino médio, provocou revolta em mentes mais estreitas, pais indignados, professores assombrados. Um jornal ouviu alunas do Colégio Amadeu Amaral que acentuaram: "Não tem nada além do que já ouvimos na rua e na escola." Um juiz, dr. Malheiros, ficou estupefato: "É um falso moralismo que não leva a nada." Já alunas de outro colégio, primeira linha, campeão do Enem (com as trapalhadas do Enem eu ficaria de orelha em pé), disseram que o "texto é nojento e faz o sexo parecer horrível, em vez de prazeroso". Cadê a professora que não ensina a ler? Não explica a vida?

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2010 | 00h00

Os pais que reclamaram conversaram com os filhos? Trocaram ideias? Olharam em torno? Porque pela internet circulam fotos de adolescentes nuas, por elas enviadas aos amigos. O goleiro Bruno, um ídolo, frequentava orgias e supõe-se que tenha mandado matar a amante. Numa novela da Globo, uma mulher casada, insatisfeita, procura renovar-se trocando de amantes. Droga é vendida por toda parte e até nas portas dos colégios. E assim eu poderia encher esta página. Pais e professores inquisidores, olhem em volta! Pornografia é o Roriz se elegendo, o Renan Calheiros firme no Senado, o Sarney ordenando censura em jornal, o mensalão, a corrupção, a Bancop aplicando o golpe do apartamento. Isso é imoral, nojento. E basta! Pensei que estivesse em 2010. Para alguns, estamos na Idade Média. Inquisição, fogueira para os infiéis. Não volto mais ao assunto.

Mudemos o tema. Coisas agradáveis. A cada momento dou graças por viver uma experiência nova que me emociona. Fui a um banco no centro da cidade para receber, pela primeira vez, minha aposentadoria. De informação em informação cheguei a uma recepcionista, pedi que me orientasse.

- O senhor se aposentou quando?

- Agora. Minha primeira vez, tenho esta idade, mas sou um aposentado novo.

- Já recebeu seu cartão do INSS?

- Não.

- Vai ter de pedir. Enquanto isso vou dar ao senhor um número, o senhor vai ao guichê e recebe seu primeiro mês.

Emocionado com a experiência, olhei o guichê. Aliás, havia dois. Um para prioridades e outro comum. Peguei a senha por prioridade, não havia tanta gente. A outra, comum, era longa. De repente, vi que a fila comum caminhava rapidamente, a outra estava paralisada. Peguei senha na comum e fui observando. Andamos mais um pouco, nós, os comuns. A fila da prioridade atendeu outro cliente. A fila dos comuns (e o que é um comum? Um normal?) andou mais rapidamente, tem gente de idade que carrega pacotes de pagamentos dos outros, é um bico que fazem para empresas. Vida obriga, às vezes.

Fui conversando, explicando que tinha acabado de me aposentar. Era como se fosse uma medalha. Um advogado especializado, o Valdir, levou um ano, mas superou tudo, dia desses chegou com a novidade: "O senhor está aposentado. Teve sorte, pela sua idade e pelos anos de trabalho, teve um índice bem satisfatório, vai entrar uma graninha satisfatória. Contou-me quanto, vi que é exatamente o que pago de convênio médico. Tinham sido 44 anos e 4 meses de ofício, batendo máquina, digitando em computador. Mas pelas minhas contas foi mais. Comecei em Araraquara aos 16 anos, em 1952, portanto foram 48 anos. Tudo bem, no interior nada recebia, meu pagamento era a permanente para entrar de graça no cinema, o que foi uma bênção, assisti cinema todas as noites por cinco anos.

Aposentado, sim. Fiquei imaginando se teria de cumprir a rotina de alguns amigos do interior que ou jogam dominó no bar da esquina, ou bocha no clube, ou ficam sentados no banco em frente do Tênis. Reúnem-se todos os dias. Certa vez, passei por lá, com minha mulher, fui chamado, me aproximei. As perguntas eram ansiosas, iguais.

- Já aposentou? Ainda trabalha nessa idade? Está louco?

- Trabalho. E vocês?

- Não fazemos nada.

- Não têm um projeto de vida? Um sonho?

- Temos. Não fazer nada.

- Não têm problemas, preocupações?

- Não somos loucos. Pegamos nosso dinheirinho no começo do mês, esse é o maior trabalho, e nos sentamos aqui conversando, lendo jornal, observando.

- Lendo o que no jornal?

- A página esportiva, não somos bestas.

- Leram sobre um conto meu que está deixando professores e pais de cabelo em pé?

- Não. Conto seu? Não, acabou o esporte, jogamos o jornal. Ficamos aqui observando. Somos observadores.

- Observando o quê?

- Passa cada menininha!

- Netas da gente de nossa geração. Ou bisnetas, teve gente que se casou cedo. Antigamente, aos 18 o neguinho estava casado, a vida era vazia.

Eles sorriram ironicamente, como se dissessem: ele não sabe nada.

- Aqui passa cada coroa! De repente, sabe como é coroa não? Tudo necessitada!

- Se naqueles anos de juventude vocês nada conseguiram com elas, não vai ser agora.

- Pena, você envelheceu, não sabe o que é bom na vida. Ficar aqui, não fazer nada. Tomar um chopinho, ir almoçar, descansar e voltar.

- Descansar do quê?

Não responderam, estava passando um senhora de uns 75 anos, conhecida, tinha sido um dos símbolos sexuais dos anos 50, ainda conservava o porte digno, altivo, os cabelos brancos bem cuidados, olhou, cumprimentou a todos, sabia que tinha sido muito desejada e isso parecia aquecê-la.

- Essa foi a maior do nosso tempo. Tempo bom, não?

- Nosso tempo? Meu tempo é este.

- Não, nosso tempo já foi.

- O meu ainda não.

- Como? Você ainda dá duro, deve bater ponto, ter preocupações, ansiedades, vai ter um enfarte...

Seguimos, eu e minha mulher. Sorrindo, ela me perguntou:

- Quem é esse bando de velhinhos?

- Velhinhos? Têm a minha idade.

- Não tem não. Olhe para trás.

Olhei, ela tinha razão, É uma gente que aparenta 95 anos mal cuidados. Carecas, barrigudinhos, os olhos murchos, a pele flácida e corroída pelo sol intenso da cidade, curvados ao peso de alguma coisa que pesa e eles não sabem o que é. Mas eu sei!

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.