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Ignácio de Loyola Brandão
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Nem vai nem volta, tour do congestionamento

Saímos de casa rumo à praia do Bonete na sexta-feira, depois de cumprir todos os rituais. Supermercado, bacalhau para o almoço de Páscoa, pães variados, queijo, frutas e assim por diante. Aquele farnel que o homem de hoje leva no carro em determinadas viagens. Antigamente, nos trens era o frango com farofa. Agora, nos aviões, ou se compra um sanduichinho congelado e um refrigerante, ou nada te dão numa viagem de três ou quatro horas. Há uma companhia que só nos dará água, se pedirmos. A comissária vai à quitinete e enche o copo no pote, na moringa ou na talha, como se dizia. Dizem que nossa aviação comercial progrediu...

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2013 | 02h11

Então, rumamos para a Marginal do Tietê, primeiro teste. Estava cheia, mas andava. Caminhões, caminhões, monstros pesando toneladas, dezenas de metros de comprimento, vans, carros com bicicletas penduradas ou pranchas (os otimistas são incorrigíveis), motos, motos, motos zumbindo. Interessante observar a fauna automobilística (vão me matar por esta). Todos os tipos de carros, modelos, modos, jeitos, uns vergados ao peso de porta-malas lotados.

Passada a entrada para a Via Dutra, o tráfego foi parando, parando, parando. Parou. Olhávamos o relógio, porque para chegar ao Bonete os barqueiros não vêm buscar depois que o sol cai. Devíamos ter saído mais cedo? Devíamos. Minha mãe sempre disse: quem tem pressa, sai cedo. É que, falecida em 1968, ela não conheceu a São Paulo de hoje. Que vai piorar, porque o governo endoidou e com medo da inflação está acabando com o IPI dos carros, e vai ser uma catástrofe. Muitos carros e motoristas ruins.

De comum acordo, fizemos o que nunca tínhamos feito. Um consenso geral que decidiu: voltemos, antes que nos encalacremos. Assim, evitamos a Ayrton Senna e voltamos. Para pegar o trânsito pesado da Marginal do Tietê rumo ao interior. Gente, Páscoa é festa no interior, como diria Elba Ramalho. Almoçar com a mãe, pai, avó, parentada. Não imaginam o que há de caipira nesta cidade.

Dessa maneira, viemos lentamente na volta, contando cada viaduto, fazendo o que chamamos "tour do congestionamento". Sugiro ao secretário de Turismo do Haddad. Tour do congestionamento. Ficamos duas horas e meia na estrada sem ir nem voltar. Indo para lugar nenhum. Voltamos para São Paulo. Bendito seja Deus! Tudo vazio. Aproveitemos. Assim, saímos de casa para o cinema e em dez minutos estávamos diante da bilheteria, quando normalmente o trajeto nos custa uma hora. Bilheteria vazia, sala cheia, ainda bem.

Fomos ver A Caça, filme dinamarquês, e adoramos. Tema forte, pedofilia e as reações de uma aldeia em torno de um professor acusado injustamente. Cinema bom, que faz pensar, que nos faz levar para casa algo a ser discutido. O artigo do Sérgio Telles no sábado passado neste Caderno 2 foi perfeito, ele escreveu o que eu gostaria de ter escrito.

Terminada a sessão, pensamos, já que está dando sopa, vamos para outro filme. Tínhamos deixado o carro no estacionamento do cinema (agora, os preços vão de 15 a 18, a 20, a 25 reais, cada um cobra o que quer) e procuramos uma sala por perto. Infelizmente a outra escolha foi uma baboseira chamada Anna Karenina, versão musical, superficial, dançada e vazia do romance de Tolstoi, um dos mais belos da literatura. Claro que Keira Knightley vale o filme, fulgurante, é uma beleza de mulher. Antes dela, Anna foi vivida por Greta Garbo duas vezes, em 1927 e em 1935. Depois teve Vivien Leigh em 1948, Jacqueline Bisset em 1985, Sophie Marceau em 1997 e a russa Tatyana Drubich em 2009, a única que não vi. Li que há pelo menos 30 versões para o cinema. Em 1966, a TV Rio adaptou para novela com Tonia Carrero, mas fracassou e foi tirada do ar, abruptamente.

Esperando que tudo estivesse vazio, fomos ao La Tartine, que tem um croque monsieur digno de Paris e um patê de champanhe idem. Lotado. Talvez o único lugar desta cidade com espera. Sentei-me, olhando aqueles cartazes de uma França dos anos 30, 50, fotos de Brigitte, Jaques Brell, e sentindo-me em Saint-Germain pedi um pastis. Entrei no clima. Perto de minha mesa, um grupo discutia um programa de televisão que exibiu o casamento de um anão. Não vi. Os comensais ao meu lado diziam: patético. Mostrava o anão em lua de mel, de cueca e se atirando numa banheira de espuma. Deixemos o moço ganhar a vida.

Aliás, uma vez, fazendo palestra numa escola, ao citar Branca de Neve, uma professora me chamou a atenção para o politicamente correto. Não deveria dizer anão e sim "verticalmente prejudicado". Ficou uma saia justa, porque quando eu dizia "verticalmente prejudicado", os alunos morriam de rir. Naquela sala cheia, ruidosa, alegre, lembrei-me que era Sexta-feira Santa e que, nesse dia, na minha infância e juventude, as cidades "fechavam", morriam. Não se comia carne, não se ouvia rádio, carros evitavam buzinar, panos pretos cobriam as imagens da igreja e das casas. Nem os bordéis funcionavam. A Sexta-feira não é mais santa. Aliás, não tem mais santos. Falando nisso, até os presidentes da Comissão de Direitos Humanos foram todos Satanás, segundo o execrável, o inimaginável, o estapafúrdio Feliciano. Ou, Infeliciano.

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