Suzanne Dechillo/ NYT
Suzanne Dechillo/ NYT

Nem tudo que reluz vai brilhar em um museu

É o caso da equivocada exposição ‘Jewels by JAR’, no Met, na qual faltam catálogo, iluminação e bom gosto

Roberta Smith/ Nova York, The New York Times

06 de janeiro de 2014 | 08h10

Aqueles que gostam de visitar museus já passaram seu tempo olhando para caras peças de luxo e símbolos de status celebrados pelas camadas superiores e classes dirigentes de eras antigas. A lista de objetos alçados à categoria de arte inclui caixas laqueadas japonesas, ovos Fabergé, porcelana francesa, mobília Roentgen, objetos incrustados com joias de tesouros desta catedral ou daquela corte. Quase sem exceção, eles encantam o olhar com o impressionante talento de seus artesãos, a maravilha do seu design e a extravagância do material cuidadosamente orquestrada.

Mas quando esses objetos são contemporâneos, quando pertencem às classes dominantes atuais, a situação se complica. Especialmente com a imensa lacuna entre os ricos e o restante da população, torna-se difícil para um grande museu celebrar os objetos muitas vezes frívolos nos quais os ricos gastam sua renda excedente cada vez maior. Uma exposição desse tipo deve ser irretocável sob todos os aspectos: organização transparente, design impecável, catálogo e legendas iluminadores e, principalmente, uma excelência evidente na qualidade dos objetos em exibição.

Infelizmente, a exposição Jewels by JAR, no Metropolitan Museum of Art até 9 de março, é um fracasso geral em todos os aspectos. Trata-se de uma das mostras mais superficiais que já vi nesta grande instituição.

Evento é dedicado à obra de Joel Arthur Rosenthal, um misterioso joalheiro de Nova York que estudou em Harvard e hoje, aos 70 anos, é conhecido por suas iniciais, principalmente entre um seleto e reduzido grupo de privilegiados. Durante anos, Rosenthal atendeu uma clientela escolhida a dedo a partir de seu escritório em Paris, criando joias únicas que foram arrematadas por valores de até US$ 4,3 milhões em leilão.

A exposição já provocou diversos comentários. Alguns olharam de soslaio para a inevitável loja de lembranças na saída, que, desta vez, oferece brincos de resina menos caros e outras peças do gênero, criadas especialmente por JAR para o museu. (O título de uma série de brincos – Tickle Me Feather (Pena de fazer cócegas) – é um bom indício do nível de charme.)

JAR não corresponde ao padrão de qualidade do Metropolitan, seja na curadoria ou no material apresentado. Trata-se de uma exposição que o museu parece ter organizado com preguiça e pressa na esperança de atrair um público amplo.

Rosenthal foi descrito pelo diretor do Met, Thomas P. Campbell, como “quase um escultor de pedras preciosas”, mas, como se vê na mostra, sua obra é bastante banal e pouco imaginativa, ainda que inegavelmente extravagante, mais próxima do artesanato do que da arte. Sua abordagem de design mais frequente é a representativa: vemos repetidos animais, borboletas e todo o tipo de temas botânicos, especialmente flores, convertidas em pedras e metais preciosos. O trompe l’oeil é padrão, com ocasionais aventuras no hiper-realismo, como grandes broches retratando a cabeça de duas ovelhas, uma zebra e um elefante, em ágata ou alumínio.

Quando Rosenthal se volta para a geometria, o resultado é particularmente genérico. A técnica vista com mais frequência é o pavé, o revestimento de superfícies com milhares de pequenas pedras instaladas individualmente, permitindo liberdade incomum para formas e cores. Apesar do potencial para o refinamento, muitas peças de JAR parecem tão exageradas e pesadas que dificilmente poderiam ser usadas, longe de consistir num adorno.

Jewels by JAR não se parece com uma exposição do Met. Jane Adlin, curadora-assistente em arte moderna e contemporânea, é citada como curadora organizadora no material de divulgação do evento, mas a instalação e o design indicam que o tema teve demasiado controle sobre tudo. Para começar, vê-se que a exposição não foi editada: ela traz mais de 400 joias muitas vezes redundantes numa galeria pequena demais para todas elas. Embora algumas sejam atraentes, outras representam chocantes lapsos de gosto, como uma caixa de madeira que retrata uma torta de nozes num trompe l’oeil grosseiro.

Em mais, a mise-en-scène não se adapta bem ao público. Com a iluminação limitada principalmente às muitas vitrines – evocando a atmosfera de uma butique –, a galeria é de uma escuridão desagradável. Não há espelhos para revelar a parte traseira desses bibelôs, algo comum nas exposições de joias nem etiquetas, com exceção de um livreto que parece ter sido xerocado e, em tais circunstâncias, fica difícil de ser lido. As informações, designadas por números ao lado das peças, trazem apenas o básico. Não é explicada a técnica, nem as propriedades nem as pedras preciosas usadas, nada é dito de seus precedentes estilísticos nem de seus termos. Será que todos sabem o que é um broche fíbula? Eu não sei.

Seria útil saber o peso de alguns desses objetos – um par de broches em forma de botões de lilás – para se ter uma ideia do desafio de usá-los; tais informações costumam constar em outras exposições de peças do tipo em museus mostrando desde coroas reais até adornos de cabeça não ocidentais. E, se as peças de JAR são leves, apesar da aparência pesada, trata-se de algo especialmente interessante de se saber.

Os painéis de textos oferecendo contextualização são virtualmente ausentes. Seria interessante saber que Rosenthal trabalhou para a Bulgari, conhecida por seus desenhos florais. E o catálogo não ajuda muito. Para começar, traz apenas 70 das 400 peças em exibição, indicando que o Met quis poupar, ou que a exposição continuou crescendo depois de o catálogo ir para a impressão.

O único ensaio é um texto de Adrian Sassoon, negociante londrino de peças contemporâneas de cerâmica, vidro, prata e joias, que traz vislumbres das preferências de Rosenthal em termos de pedras e cortes, por exemplo, e técnicas de trabalho. Mas faltou o ensaio erudito de um curador do Met, defendendo a importância da obra. Ocasionalmente, há peças maravilhosas, especialmente entre os brincos de Rosenthal, incluindo pares de pingentes quatrefoil e um suntuoso conjunto inspirado em chorões.

Os broches de flores, mais simples e menores, são com frequência cativantes. As peças avulsas inspiradas em frésias e aveias parecem bonitas nas fotos, mas são grandes demais, indicando um frequente problema de escala.

Parte substancial das joias de Joel Arthur Rosenthal carece de uma forma abstrata inerente ou completude. As peças não se acomodam em si, o que torna difícil imaginá-las repousando no corpo de maneira confortável. A possibilidade do desconforto é particularmente notável nos braceletes cujas flores pavé são presas ao pulso por galhos retorcidos e angulosos.

No catálogo, Sassoon escreve que “Joel Rosenthal nunca se propôs a revolucionar os limites do design de joias”, mas não volta a esta ideia. No entanto, é o Met que deixa o visitante e Rosenthal com a sensação de que faltou algo. Todos mereciam uma apresentação e uma defesa melhores da obra dele.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.