Nem todo Dario Fo vem para agradar

Peça, em cartaz também às segundas, tenta, mas não consegue chegar lá

César Augusto, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2010 | 00h00

Cena. Aos atores faltam a precisão e o ritmo da linguagem cômica: elenco passa longe das improvisações do próprio Dario Fo

 

 

 

Nem Todo Ladrão Vem Para Roubar é um texto do artista italiano Dario Fo, montado pelo Coletivo Teatral Commune, com tradução, adaptação e direção geral de Augusto Marin e direção de elenco de Antonio Aurrera.

O trabalho de Dario Fo se confunde com a história do teatro contemporâneo italiano, participando de um momento de renovação do mesmo com o movimento do novo teatri do piccoli, através do qual, grosso modo, foi desenvolvida uma linguagem mais popular para as peças. Nesse instante, Fo partia, sobretudo, das situações cômicas de erros da tradição medieval e renascentista, explorando-as. Ainda hoje, é possível ver em vídeos suas performances cômicas e suas mímicas baseadas no grammelot, língua inventada pelo artista, baseada na mistura da língua italiana moderna com dialetos da região Norte da Península Itálica.

Em Nem Todo Ladrão Vem Para Roubar, peça escrita em 1958, Dario Fo, de acordo com texto do programa da peça, escrito pelo tradutor Augusto Marin, chega a misturar um pouco do "humor ingênuo das farsas e vaudevilles franceses (...) com elementos do surrealismo e teatro do absurdo, o clima gélido e paranoico de Beckett e Adamov com a linguagem popular e mecanismos da farsa italiana, invertendo a lógica realista e os lugares comuns da comédia de costumes."

De fato, o texto, se dissociado da montagem, guarda relativa relação com esses "modelos" do teatro, sobretudo, a inversão da lógica realista e dos lugares comuns da comédia de costumes, uma vez que a linha de força do texto obedece a uma antítese básica, porém, não menos, por causa disso, dialética: aqui, aqueles que, teoricamente, deveriam ser os escrupulosos (pessoas que estão no jugo do poder), são os que não possuem nenhum escrúpulo, enquanto que o ladrão, aquele que, em tese, não deveria ter nenhum escrúpulo, é o único que parece possuir um senso de ética e algum princípio.

Ocorre é que o que poderia ser uma comédia contundente e ácida, com uma crítica profunda à obrigação moral de todo cidadão, desmanchando o maniqueísmo vigente em nossa sociedade, não consegue escapar da própria comédia de costumes da qual tenta fugir. Isso porque, elementos - como a iluminação, os objetos cenográficos e até mesmo os figurinos - que poderiam dar suporte aos contornos de uma estética surrealista, com ambientação de história em quadrinhos e ritmo cinematográfico, só reforçam o lugar comum. Mas principalmente, faltam aos atores "a precisão e o ritmo da linguagem cômica" que se vê em ícones como os Irmãos Marx, Buster Keaton e o próprio Dario Fo em suas improvisações e mímicas com seu grammelot. Assim, parece ter faltado à direção o entendimento de que as situações cômicas e a composição do caráter dos personagens - do gesto à fala - precisam ser desenhadas com a exatidão e a precisão de quem pinta um quadro (não é à toa que Dario fazia esboço de suas tramas em pinturas antes de representá-las ou escrevê-las) e, por isso, as interpretações se perdem numa mixórdia teatral.

O Teatro Commune é uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), registrada no CMDCA (Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente da cidade de São Paulo) e um Ponto de Cultura do Ministério da Cultura, e tem méritos em seu trabalho de formação junto aos adolescentes e jovens. No entanto, ainda que a dramaturgia dessa peça abra caminho para avançar para além dos tipos farsescos, humanizando um ou outro através da dialética, não foi dessa vez que a pesquisa do grupo conseguiu dar conta desse princípio do texto, banalizando-o e ficando, portanto, apenas na superfície das contradições do ser humano.

 

 

 

NEM TODO LADRÃO VEM PARA ROUBAR

 

Teatro Commune. Rua da Consolação, 1.218, telefone: 3476-0792. Sáb., 21h; dom. e 2ª, 20h. R$ 30. Até 2/8.

 

 

 

 

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