Richard Perry/The New York Times
Richard Perry/The New York Times

Nem tão santo

Ele queria ser visto como benevolente, mas o Paul que fará shows no Rio foi também infiel e[br]autoritário, como diz um novo livro

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2011 | 00h00

Uma nova biografia de Paul McCartney chega às livrarias brasileiras, coincidindo com a volta do ex-Beatle ao Brasil para dois shows no Rio, amanhã e segunda (leia ao lado). Em Paul McCartney - Uma Vida (Editora Nova Fronteira, 400 págs., R$ 44,90), o norte-americano Peter Ames Carlin começa sua história relatando um show do cantor e compositor à cidade natal, Liverpool, quando estava prestes a completar 66 anos.

A leitura é cativante e é recomendável para iniciantes à procura de informações objetivas e analíticas, sempre mostrando como traços da personalidade de Paul refletem em sua arte - embora fãs radicais dele e dos Beatles achem que o livro tem muito "recorta-e-cola" e pouco acrescenta às inúmeras e exaustivas publicações que a sucederam.

"Cada vez que escrevo sobre um artista de qualquer gênero - ou sobre qualquer um que se predisponha a fazer qualquer coisa com tal paixão e brilhantismo - me fascina principalmente a interação entre psicologia e criatividade", disse Carlin, em entrevista ao Estado. "Um dos mais importantes temas do livro (para mim, pelo menos) é a relação entre tragédia e criatividade em Paul. Tanto ele como John (Lennon) foram feitos para o rock"n"roll, então um para o outro, então para moldar seu caminho até o topo, em parte como uma maneira de remediar o vazio de suas vidas. Paul perdeu a mãe quando tinha 14 anos; John foi abandonado por seus pais quando era jovem, então perdeu sua mãe justamente quando estavam se tornando mais próximos. Tais perdas te levam ao fundo do poço e geram uma necessidade de criação, amor, admiração, fama e sucesso que pode ser inextinguível. Virtualmente, cada artista sobre o qual escrevi repete essa mesma história. A de Paul é particularmente espantosa."

Carlin, que é jornalista e especialista em música pop, escreveu uma biografia de Brian Wilson e prepara outra de Bruce Springsteen, fez diversas entrevistas com parentes, amigos e profissionais que trabalharam com Paul, além de recolher extenso material de pesquisa dos quais procurou destacar informações específicas e pouco difundidas.

Elogiado por Bob Spitz, autor de The Beatles: A Biografia, considerada a melhor sobre o grupo, ele expõe as dualidades de Paul, que seus convivas apontam como introspectivo, "rebelde conformista", carismático, infiel e autoritário, que queria ser visto como "muito generoso e benevolente", e um músico genial, entre outras virtudes e defeitos.

Carlin procurou "evitar as habituais narrativas de bastidores (sexo, drogas, acessos de mau humor) a fim de empreender sérias considerações sobre o trabalho da pessoa". O que não quer dizer que as histórias da vida real não importem de fato. "Penso que meu livro tem uma porção de material novo interessante sobre o papel de Paul como uma espécie de orientador dos Beatles (o que os levou tanto ao sucesso como a seu precoce fim)", diz o autor.

Ruptura. Ele conta que também tentou jogar luz seriamente sobre a transição dele de Beatle para ex-Beatle, "como a sombra dos Beatles tanto inspira como o consome pouco a pouco" e de sua relação de amor e ódio com Lennon. No fim, ele afirma que Paul é hoje prisioneiro do próprio passado, uma versão cada vez mais apagada dele mesmo, cantando as mesmas velhas canções dos Beatles. "O ponto dessa questão é descrever a paradoxal visão de um Paul pegando a estrada para ser o embaixador solo dos Beatles no século 21, enquanto o outro Paul, mais artístico, está de volta ao estúdio, ainda experimentando, ainda se arriscando, muitas vezes vindo com coisas maravilhosas."

Para quem se liga em detalhes, Carlin conta que um dos pontos de iluminação de sua biografia é o relato de como a citação da retumbante frase "estou deixando os Beatles", de Paul, foi na verdade o oposto do que ele realmente disse. O ponto alto do livro é a história a partir daí.

"As verdadeiras revelações, acho, começam no dia depois que os Beatles romperam. Como se sente um cara de 27 anos quando ele se dá conta de que seu maior e mais importante trabalho já ficou para trás? Como começar de novo? O que acontece quando a mais significativa relação (criativa ou outra) termina com tanto amargor? Se eu fosse escrever um romance sobre um cara como Paul, ele começaria depois que os Beatles tinham terminado. De modo que essa é minha parte favorita do livro, e não acho que haja nada de recorta-e-cola sobre isso."

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