Nem precisava de tanto marketing

Nem precisava de tanto marketing

Erykah Badu entrou de sola com a promoção de seu último trabalho. Enquanto seus advogados estancavam o vazamento do disco pela internet, a cantora postou no YouTube um clipe em que caminha por Dallas, tira a roupa em frente a pedestres embasbacados e se joga no chão ao som de um disparo, bem ao lado de onde a bala de um franco-atirador tomou a vida do presidente John F. Kennedy, em 1963. Fora a estratégia desnecessária e arriscada (a cantora tem uma boa base de fãs desde que seu álbum Baduizm estourou nas paradas, em 1997), nota-se também o sabor de ato falho que acompanha a jogada.

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2010 | 00h00

Badu escreveu em seu twitter que a performance era um protesto contra os que "assassinam rapidamente aquilo que não entendem". Mas é impossível assistir a seu corpo nu estendido em Dealey Square ao som da suave Window Seat, cuja letra diz "Eu preciso que você precise de mim/ Eu preciso de sua atenção/ Eu preciso de você por perto/ Eu preciso de alguém para bater palmas para mim", e não notar que a cantora parece carecer mais da proteção de um homem do que da compreensão de suas ideias.

Esta fragilidade, que ora se expõe, ora se esconde atrás de atitudes resolutas como o exibicionismo em questão, dá o tom irresistível de New Amerykah, Pt. 2: Return of the Ankh e traz uma bem-vinda dramaticidade ao panorama internacional de divas negras, onde o cardápio é dominado por variantes do cool inabalável de Sade e o glamour de Photoshop de Beyoncé.

Em Gone Baby, Don"t Be Long, Badu encarna a mulher de um malandro. Sua voz pequena e sensual é reproduzida em diferentes camadas, formando uma polifonia de cantoras que, sobre um groove denso e contagiante, asseguram seu homem de que estarão esperando quando ele voltar da gandaia. Já em Fall In Love (Your Funeral) o vocal endurecido de Badu desdenha dos avanços de um pobre coitado e o ameaça com uma citação de ninguém menos vil que o gangsta Notorious B.I.G.

A discografia de Badu é consistente e se às vezes perde um pouco em conteúdo, não deixa de estar bem acima da média. New Amerykah, PT. 1, de 2008, antecipou a tensão eleitoral pré Obama com um hip-hop politizado. Mama"s Gun (2000) e Worldwide Underground (2003), se valeram de timbres acústicos e canções melódicas para ressaltar os vocais de Badu.

No novo disco, a cantora se entremea mais à produção, que leva a mão da própria Badu e de James Poyser, veterano arranjador de Al Green, Mariah Carrey e D"Angelo. A dupla compôs grooves econômicios e batidas contundentes, formando uma narrativa rítmica que progride gradualmente até o ápice do disco, Out Of My Mind, Just In Time, uma espécie de suite popular moderna. As harmonias jazzísticas e os timbres escolhidos por Badu, uma auto-denominada "garota analógica em um mundo digital", permeiam as faixas e nos remetem ao genial período médio de Stevie Wonder. Mas a atenção à herança cultural deixada pelos mestres do funk não atola o disco em nostalgia. Por isso, neo soul, nome dado ao gênero de Badu, passa longe de captar a essência do que deveria ser simplesmente chamado de música negra de qualidade.

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Gravadora: Sony/BMG. Preço: R$ 14,40

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