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Nelson X Drummond

Ao longo de três décadas, Nelson Rodrigues despejou ironia e fel sobre o poeta

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

12 de março de 2019 | 02h00

Na cena literária brasileira, atulhada desde sempre de suscetibilidades e de egos colossais, desavenças e inimizades são coisas que jamais faltaram. Mas não é todo dia que os protagonistas são escribas do primeiro time – caso de Nelson Rodrigues e Carlos Drummond de Andrade, expoentes que transitaram de uma camaradagem sem intimidades para um mal-estar tão espesso quanto vitalício.

Até onde a vista alcança, a escalada inamistosa foi iniciativa de Nelson, que em meados da década de 40 se pôs a disparar alfinetadas, quando não bordoadas, contra o poeta mineiro, o qual, por temperamento e estratégia, nunca passou recibo das provocações e ataques. Quando o dramaturgo se foi, em 1980, fazia décadas que os dois não se falavam.

A primeira rachadura data de 1946, quando Nelson convidou Drummond para assistir a uma encenação de Álbum de Família, peça que, como tantas outras de sua lavra, gramaria longos anos de proibição. Acossado pela Censura, em mais de uma ocasião o autor pôde contar com a solidariedade, menos espontânea que solicitada, de Carlos Drummond de Andrade.

Escaldado naquilo que considerava demasias no teatro de Nelson Rodrigues, o poeta, daquela vez, escandalizou-se com a crueza naturalista de um sanguinolento e estrepitoso parto levado ao palco. Terminado o espetáculo, discretamente ia saindo quando um repórter, incitado por Nelson, o interceptou. Drummond preferiu não opinar. “Eu não quis dizer que não tinha gostado”, contará ele no final da vida. Seu cauteloso silêncio, porém, foi eloquente o bastante para enfurecer Nelson Rodrigues, possuidor de vaidade mendicante. A partir daí, o criador de Perdoa-me por me Traíres passou a hostilizar o poeta, chegando, queixava-se este, a lhe atribuir “frases idiotas” em suas crônicas.

O caldo engrossaria ainda mais quando Nelson, em Senhora dos Afogados, decidiu trocar por Drummond o sobrenome da família nada exemplar que protagoniza o drama. Segundo o escritor mineiro, uns Vanderley de Pernambuco, onde a peça é ambientada, teriam feito saber que não admitiam ter seu nome enxovalhado na ribalta. O futuro autor de Claro Enigma acusou o golpe, mas não passou recibo. “Percebi”, contaria, “que a malandragem de Nelson Rodrigues era essa: se eu protestasse, criava-se uma polêmica”.

Não ficou nisso a pinimba rodriguiana. Quando, em 1952, Jorge de Lima publicou a mais ambiciosa de suas criações, Nelson tomou-a como pretexto para desferir mais cacetada: “Como é pequenino o Carlos Drummond de Andrade depois de Invenção de Orfeu”, escreveu – e acrescentou: com seu novo livro, o escritor alagoano enchera o Brasil de “ex-grandes poetas”. Foi também por aquela altura que, tendo conhecido João Cabral de Melo Neto, valeu-se dele para rebaixar Drummond, a quem passou a referir-se como sendo “o segundo poeta da língua”.

Nos dias em que se inaugurava Brasília, em 1960, Nelson catou em crônica de seu desafeto uma referência à poeira da nova capital, e produziu a caricatura de um burguês que, no bem-bom de Copacabana – onde morava o poeta –, exibia “imaculado asseio físico”, “uma falsa, indesejável e comprometedora limpeza”, “um horror grã-fino ao pó”, na contramão do que seria “um novo Brasil”.

Em março de 1967, abalado pela perda do irmão Paulo – morto, com a mulher, o casal de filhos e a sogra, quando uma pedra rolada destruiu o prédio onde moravam, em Laranjeiras –, Nelson Rodrigues voltou a fustigar Carlos Drummond de Andrade, acusado, dessa vez, de insensibilidade diante da tragédia, pois a ela não dedicara mais que algumas linhas em sua coluna no Correio da Manhã. Com a agravante, acrescentou Nelson, de que Paulo, escritor além de jornalista, era admirador do poeta, a quem dedicara seu livro mais recente, O Sétimo Dia

Incansável em seu bullying anti-drummond, houve uma vez em que Nelson o acusou de haver surrupiado criação de Victor Hugo para usá-la no poema Os Mortos de Sobrecasaca. “Eis a verdade”, denunciou: “A imagem do Drummond era uma goiaba que o nosso poeta nacional fora caçar no pomar hugoano”. Faltou, porém, apontar a tal goiaba.

Houve mais. Quando, em 1975, Drummond recusou um prêmio literário concedido em Brasília, alegando razões de consciência – mal se passara a primeira metade da ditadura militar –, Nelson lhe dedicou duas crônicas venenosas. Na primeira, pediu ao leitor que imaginasse o comportamento do escritor mineiro caso o cheque fosse “mais polpudo”. “Não resisto à satisfação de descrever a cena: Drummond está em casa quando lhe chega um telegrama da Suécia. Na Suécia há sempre, no trono, um Gustavo. Eis o que, abrasado, Drummond lê: ‘Ganhaste o Prêmio Nobel. Gustavo’. Imagino o poeta a dar rútilas patadas em todas as direções: ‘Não admito! Não admito!’” Arremata Nelson: trata-se de alguém que “não admite cheques em nenhum idioma”.

Mais deboche na crônica seguinte. Agora, Drummond é visto ao receber, não o Nobel, mas o prêmio da Loteria Esportiva – situação que ao cronista parece absurda, “porque ele não entende nada de futebol”. Para seu inimigo, o poeta era tão leigo em ludopédio que, no Estádio Mário Filho (Nelson Rodrigues, e apenas ele, só se referia ao Maracanã pela denominação oficial, dada em homenagem a um de seus irmãos), precisaria cutucar, aflito, o vizinho de arquibancada para elucidar uma dúvida crucial: “Quem é a bola?”. 

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