Nelson Rodrigues em palco pouco usual

Senhora dos Afogados sobe à cena em restaurante do Rio

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2010 | 00h00

Em 1954, a estreia de Senhora dos Afogados, no Teatro Municipal do Rio, causou comoção e dividiu os presentes. Houve quem se sentisse ofendido com a história de incesto e fratricídio e xingasse Nelson Rodrigues na cara: "Tarado!" Outros louvaram a quinta peça do autor, escrita em 1947 mas então censurada, e enxergaram ali uma das grandes tragédias do teatro brasileiro.

Passados 56 anos da montagem inaugural, dirigida por Bibi Ferreira e com Nathalia Timberg como estrela, e 30 da morte de Nelson (em dezembro), o texto - encenado há dois anos por Antunes Filho e, nos anos 80, por Aderbal Freire-Filho -, está sendo remontado no Rio sob direção de Ana Kfouri, que convocou atores de dois grupos que dirigiu.

A escolha de um palco não-usual e de uma disposição diferente do público em relação aos atores é indício de suas intenções nada modestas: Ana levou os tormentos que rondam a família Drummond para o primeiro andar do recém-reformado restaurante Albamar, na Praça 15, centro do Rio, embaixo do salão em que outras famílias almoçam e jantam aos fins de semana.

A plateia (no máximo 50 pessoas por récita) fica instalada dentro da casa do clã, em cadeiras espalhadas pela sala de jantar e num dos quartos. Tem visão da Baía de Guanabara ao fundo, com a Ilha Fiscal e embarcações, e sente a maresia que chega pelas janelas abertas. A ladainha das prostitutas do café do cais também vem de fora, da calçada e até de dentro dos barcos.

"Fazer Senhora dos Afogados é um desejo muito antigo, vem desde 1992, quando comecei a dirigir", conta Ana, que já havia encenado Nelson, mas preferiu amadurecer mais antes de trabalhar esse texto.

"Eu sabia que não era a hora. Quando decidi, pensei num lugar com mar, que é quase um personagem da peça, e que fosse denso, com uma arquitetura imponente, que trouxesse a austeridade dessa família. Nunca cogitei um lugar convencional. A ideia do Albamar foi tão forte que já vim almoçar trazendo meu cenógrafo. Parece que foi feito para isso." O restaurante, que fica num imóvel tombado, foi inaugurado em 1933 e voltou aos bons tempos ano passado, depois de anos de decadência e uma reforma milionária.

A "sóbria e triste" família Drummond, que "tem a loucura e a morte na carne", vive ocorrências estranhas em seu casarão à beira-mar: pai (vivido pelo ator Renato Carrera) e mãe (Cristiane Larin) enlutados veem o mar levar para a morte duas de suas filhas, Dora e Clarinha. Os corpos nunca são devolvidos.

Moema (Ana Abbott) é a que fica, é a assassina das irmãs. Ela vive uma paixão pelo pai, o quer só para ela, e aproxima seu noivo (Renato Livera) de sua mãe. Ao pai é ainda atribuída a morte de uma prostituta do cais do porto, a machadadas.

O medo do mar está no ar, ele não gosta dessa família, como diz a avó louca (Suzana Saldanha). "O mar é profético, ameaçador, a força do destino", aponta Ana, que passou meses trabalhando o texto com seus atores, sempre com a orientação de não "psicologizar" os personagens, e sim deixar as palavras de Nelson falarem por si.

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