Nelson Rodrigues como mestre

Humor e histórias de amor passional fazem parte do repertório de Jô Bilac, que brinca com o melodrama

, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2010 | 00h00

Rebu. Um jogo cênico com as intrigas típicas dos folhetins

 

 

"Sucesso parece algo tão frágil", Jô desconversa. Diante da insistência da interlocutora, até assente que tudo aconteceu de fato muito rápido: menos de três anos o separam da condição anônima de aluno da Escola de Teatro Martins Penna.

Para justificar a fama repentina, contudo, ele prefere falar em sorte ou evocar certa natureza provinciana dos cariocas. "O Rio tem essa coisa bairrista e, informalmente, você vai traçando parcerias. Seus amigos de praia sabem que você escreve e vão pedindo textos."

Foi assim, na areia, que surgiu a parceria com Miguel Solano. Ao lado do galã, ainda desconhecido nos idos de 2007, escreveu Dois para Viagem, texto cômico calcado na "fisicalidade", como gosta de definir. Quase ao mesmo tempo, lançou Desesperadas, uma comédia rasgada com laivos de vaudeville, protagonizada por Cristina Pereira.

No ano anterior, havia se arriscado no soturno Bruxarias Urbanas. Mas a história começa ainda um pouco antes, quando finalmente conseguiu fazer o que sempre quis - escrever - e assumiu o posto de roteirista dos gibis do Sítio do Pica-Pau Amarelo.

Não foi das mais triviais a tarefa de inventar peripécias para a personagem Narizinho. Jô lembra que pouco conhecia da obra de Monteiro Lobato, já que passou boa parte da infância fora do País. "Meu pai é espanhol. Morei até os 8 anos em Madri."

E eis que ele lança mais uma pista para entendermos o seu pendor pelo melodrama, o seu quê de Almodóvar, a sua predileção pelo autor de Vestido de Noiva. Não bastasse o cavanhaque a lhe emprestar certa emanação cafajeste, Jô também é dado a sentenças definitivas, frases de efeito e histórias viscerais, bem ao gosto rodriguiano.

A mulher torna-se amante do melhor amigo do marido. Triângulo amoroso, vingança, traição. Poderia ser algum episódio de A Vida Como Ela É, mas trata-se do enredo de Cachorro!, a tal peça que revelou Jô, percorreu mais de 30 cidades e mereceu uma indicação para o Prêmio Shell.

A reverência ao mestre do "teatro da obsessão" é tão despudorada, que levanta a dúvida: não deu medo de deixar tão explícitas as referências, de ser comparado? "Só não fiquei com medo por absoluta falta de dimensão do que estava fazendo. Era um trabalho tão despretensioso, uma peça criada com um grupo de amigos da escola. Não imaginava que fosse dar em alguma coisa." Mas deu no que deu. / M.E.M

OUTROS TRABALHOS

Savana Glacial

Obra mais recente do dramaturgo, a peça, que está em cartaz no Rio, trata de um jovem casal que resolve se mudar para recuperar o casamento. A aparição de uma maquiadora e um entregador, no entanto, vai transformar a vida dos dois e instaurar uma rede de obsessões. No palco, um jogo com os tênues limites entre realidade e ficção, com cenas que se desmentem umas às outras.

Limpe Todo o Sangue Antes Que Manche o Carpete

A busca pelo sucesso a qualquer preço norteia o enredo dessa peca, que estreou em 2007. No espetáculo, que era dirigido por Vinicius Arneiro, habitual parceiro do dramaturgo, o público acompanhava a trajetória de um jovem executivo, que vê seu projeto ser preterido pelo de outro, e as desventuras de duas enfermeiras que cuidam de velhinhas presas a cadeiras de rodas, odeiam o que fazem e se deparam com a possibilidade de mudar de vida.

Cachorro!

O espetáculo tem origem em um esquete, premiado, em 2006, no 1º Mercadão Cultural - RJ, nas categorias melhor esquete e melhor direção. Como fonte de inspiração, o autor vale-se de Nelson Rodrigues para construir a história de um triângulo amoroso. A peça mereceu indicação para o Prêmio Shell 2007, de melhor direção para Vinicius Arneiro.

Trechos

"O que sinto por você não vem em conta gotas, não. É enchente. Vendaval. Furacão e o escarcéu. É essa coisa doida que sai devastando a gente. (...) Você é febre... Você é um gosto que não sai da boca... É câncer, câncer bom, que toma o corpo todo, que não tem cura... Você roubou a minha alma: vai ter que devolver!"

Cachorro!

"Tudo é ficção, menos a dor. A dor é real."

Savana Glacial

"Sua esposa dançará descalça em seu sangue derramado em poça, tal qual uma deusa pagã."

Rebu

"Vai ser rainha de Sabah como? Mofando num quartinho de empregada apertado? Dura que nem coco? Namorando um pé-rapado que só tem grana pra te pagar um milk-shake! Não dá pra ser rainha de Sabah assim, não dá pra ser nada assim! Acorda, Geda! Sabe quando é que você vai poder tocar num rubi, minha filha? Nunca! Vai ficar lambendo revista pra sempre."

Limpe Todo Sangue Antes Que Manche o Carpete

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.