Dario de Almeida Prado Jr/Divulgação
Dario de Almeida Prado Jr/Divulgação

Nelson Pereira exibe novo filme sobre Tom Jobim

Documentário teve sua primeira sessão no 16.º FAM ; estreia nacional está prevista para agosto

LUIZ ZANIN ORICCHIO - O Estado de S.Paulo,

18 de junho de 2012 | 03h08

FLORIANÓPOLIS - Em seu sítio, Tom Jobim trabalhava duro no piano sobre uma canção indomável, Matita Perê. Mexia de lá, mexia de cá e não ficava contente. Exausto, pegou o violão, tocou dois acordes com raiva e começou a cantarolar. "É pau, é pedra, é o fim do caminho..." Já viram, não é? Foi assim mesmo que nasceu o clássico Águas de Março. Além do cansaço, a inspiração veio de uma obra interminável na estrada do sítio. "Tinha muito pau e pedra por lá, atrapalhando a vida da gente". Quem conta a história saborosa é a primeira mulher de Jobim, Thereza Hermanny, no novo filme de Nelson Pereira dos Santos, A Luz do Tom. O documentário teve sua primeira sessão em Florianópolis, onde foi filmado em parte, na abertura do FAM (Florianópolis Audiovisual Mercosul). A estreia nacional está prevista para agosto.

A Luz do Tom é baseado no livro Antonio Carlos Jobim - Um Homem Iluminado, que Helena Jobim escreveu sobre o irmão famoso. Helena é também entrevistada do filme. Ela, Thereza e Ana, a última esposa de Tom Jobim. Uma vida narrada através de vozes femininas, as favoritas do compositor. O filme completa o retrato do maestro, composto por outro mestre, o diretor Nelson Pereira dos Santos. No primeiro filme, A Música Segundo Tom Jobim, Nelson Pereira trabalhava apenas com as canções que tornaram Tom referência no Brasil e no mundo. Um brasileiro universal. Agora, surge o Tom mais íntimo, familiar, narrado na primeira fase da vida por sua irmã.

A abertura é belíssima. Usa imagens de um antigo programa sobre Tom, gravado na extinta TV Manchete, e depois a câmera irá encontrar Helena numa praia bonita e ainda não destroçada pela especulação imobiliária. "Por isso filmamos em Florianópolis", conta Nelson em conversa com o Estado. "Seria impossível encontrar no Rio de Janeiro de hoje algo que se assemelhasse à cidade onde Tom passou a infância." O maestro nasceu em 1928 e o bairro que ajudou a tornar famoso - Ipanema - era então apenas uma praia de poucas casas, semideserta e bucólica. Esse Rio antigo Nelson foi encontrar em Floripa, nas praias de Joaquina e Moçambique.

Através de Thereza, o filme evoca essa primeira fase de criação de Tom, a mais poderosa talvez. Ela conta a história do casamento, de como um insinuante e jovem Tom Jobim, ainda mais esportista do que músico, a abordou numa praia (sempre as praias) e como foi difícil levar adiante o namoro diante de um pai conservador como o dela. Por fim casaram e foram morar na casa da família, cheia de gente e de parentes. Tom, em início de carreira, não tinha dinheiro para casa própria. Por isso, já famoso, como ele dizia, gaiato, que precisava ganhar um dinheirinho para pagar o aluguel, sabia do que estava falando.

A fluência e a espontaneidade de Thereza espantam o espectador. Surpreenderam ao próprio Nelson que a procurou sem muita esperança, pois ela sempre teve fama de mulher discreta. "Mas acabou por se converter no fio condutor da história", diz o diretor. Ele faz uma comparação com outro filme seu, este dedicado a Sergio Buarque de Holanda. Tentava entrevistar dona Maria Amélia, mulher de Sergio e mãe de Chico Buarque, que encontrava sempre uma desculpa para escapar ao convite. Até que, diante da insistência do cineasta, topou a parada. E não só: converteu-se no centro de referência do filme sobre o marido famoso. Com Thereza deu-se o mesmo.

Mas a verdade é que as três mulheres - a irmã e as duas esposas - concorrem para formar o retrato multifacetado de Tom. De Helena, vêm-nos a infância e os anos de formação. De Thereza, os primeiros anos como músico, o estudo árduo, o primeiro sucesso. E de Ana, o Tom da maturidade, da serenidade e do contato profundo com a natureza.

Em seu filme, Nelson trabalha visualmente esse universo de Tom Jobim. São presenças constantes as praias, o mar, a mata, as árvores, o voo do urubu - esse pássaro soberano no céu e desgracioso quando em terra. Nelson conta uma história deliciosa a respeito. Vários cineastas tentaram fazer filmes sobre Tom Jobim, depois que ele se tornou unanimidade nacional. A cada um que o procurava, Tom perguntava: "Mas você sabe filmar um urubu no voo?" Senão, nada feito, ria o maestro.

Nelson pegou o touro à unha, ou melhor, o urubu no voo e concebeu um filme quase de um ponto de vista aéreo, pelo olhar de um pássaro livre. Daí a presença das aves não ser apenas referência plástica ao universo do músico, mas uma concepção mesma do filme. Da mesma forma, a água, sob a forma de regatos, fontes, ruído tranquilizador que entra como componente da trilha sonora. A Luz do Tom é um filme muito táctil em seu desenho fotográfico (assinado por Maritza Canefa), e incorpora os sons da natureza em sua música.

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