Nelson Leirner reinventa a arte

A idéia era fazer uma espécie de apanhado da obra de Nelson Leirner nos últimos dez anos, dando ênfase à diversidade de suportes. A mostra surgiu do desejo de mostrar ao público como a arte contemporânea transita com tranqüilidade do desenho à instalação. Ninguém melhor do que Leirner para representar essa liberdade de ação na arte. Um dos trabalhos inéditos - que o próprio artista considera o melhor da mostra - é uma singela homenagem a sua mãe, Felícia Leirner, cujo centenário de nascimento será celebrado este ano. Sobre um caminho ascendente (formado por livros sobre a obra da escultora) ele colocou um delicado trenzinho, feito com o acabamento tosco dos trabalhos infantis. Sobre os vagões, animais, anjinhos e outras figuras singelas. Com a série Flores Cor Carmim (48 desenhos de flores em grafite em que se vê a mão do artista), esse é dos poucos trabalhos em que não há espaço para a irreverência, a ironia política de Leirner. "Ele não perde esse caráter eminentemente crítico", afirma Agnaldo Farias, curador da mostra. Curiosamente, foi também Farias o curador da mostra de caráter retrospectivo realizada por Nelson em 1994 - inaugurando o Paço das Artes -, data que ajuda a compreender melhor o título da exposição (1994+10). Às vezes sua contundência assusta, como no polêmico trabalho em que desenhou falos e elementos de forte conotação sexual sobre as fotos de crianças feitas por Anne Geddes, evidenciando o apelo erótico das imagens aparentemente pueris. O trabalho, que está na mostra, lhe valeu muita dor de cabeça e um processo, hoje arquivado. "Acho que ela é que devia ser processada. Ela, que usa as criancinhas, colocando-as sobre botões fálicos de rosa, que é pedófila e não eu", afirma ele, associando essa falsa singeleza no trato dos bebezinhos nus com os pais que exultam vendo os filhos a dançar a Dança da Garrafa. "Ninguém quer enxergar", diz. Outro aspecto bastante presente em sua obra é a questão da violência urbana. As imagens de Jesus ou de São Sebastião (referência à cidade do Rio de Janeiro para onde se mudou há oito anos) perfurados por balas perdidas surge aqui e ali nos trabalhos. Leirner está permanentemente se reinventando, propondo um jogo para si e para o público, com ironia e sedução plástica também. Em diálogo com Duchamp, em símbolos como a Mona Lisa, ou ainda recriando interessantes imagens da miscigenação cultural, religiosa, visual brasileira (como em O Dia em Que o Corinthians Foi Campeão, cuja composição ficou inteiramente a cargo dos montadores). "Sou um jogador; fiz da arte um jogo, fiz as minhas regras e as dei ao público", define. Além dos trabalhos de Leirner, a mostra reúne também uma seleção de obras de um grupo de artistas orientados por ele no Rio - nos quais predomina o aspecto colecionador, essa forma tão particular que o artista tem de trabalhar com o acúmulo e sobreposição de objetos do cotidiano. E um livro deve ser editado em breve. A exposição do instituto também não é a única mostra do artista na cidade. Na terça-feira ele inaugura outra mostra em sua galeria paulistana, a Brito Cimino, para onde trouxe a biblioteca de seu ateliê, contrapondo a fisicalidade dos objetos à imagem idealizada da fotografia. Serviço - De terça a domingo, das 11 às 10 horas. Instituto Tomie Ohtake. Avenida Faria Lima, 201, tel.; 6844-1900. Até 11/7. Abertura hoje, às 20 horas.

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