NELSON LEIRNER CARISMA E CRÍTICA DE UM PROVOCADOR

Produção recente do artista plástico é tema de livro de ensaios

CAMILA MOLINA, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2012 | 02h06

Da Monalisa ao Mickey, passando pela criação de um altar para o cantor Roberto Carlos ou de uma instalação de uma paca empalhada que voava, vários são os ícones que Nelson Leirner utiliza em sua arte sempre provocativa e irreverente. Professor de gerações, "artista de artistas" e um dos criadores mais consagrados da arte brasileira, sua produção, entretanto, merece mais estudos e olhares, como afirma o curador Agnaldo Farias no texto de abertura do livro Nelson Leirner: A Arte do Avesso 1999+ 1-1999+13 (Andrea Jakobsson Estúdio, 232 págs., R$ 95), que acaba de ser lançado.

"Um curioso efeito produzido por uma obra cuja aparência é sempre carismática, deliciosamente próxima, dado que lida com objetos no geral fofinhos, álacres, familiares, ainda que subvertidos quanto à sua significação corriqueira, e que termina por ocultar aos olhos embevecidos suas sutis e incisivas camadas críticas", assinala Agnaldo Farias.

Quando o artista apresentou, em 2011, uma antologia de 50 anos de trajetória na Galeria de Arte do Sesi, divertiu-se quando lembrou que sempre apelidam sua obra como se criada por um jovem. "Não sei se isso é um elogio ou uma crítica", afirmou, na época. Mais ainda, não aceita que a radicalidade possa ser apenas consumida pelo mercado - apesar de ser um "autor disputado no mercado de arte, com trabalhos presentes ou ingressando em coleções do mais alto nível, nacionais e internacionais", como afirma Farias.

Releituras. Um olhar mais retrospectivo sobre sua trajetória não deixaria de citar que Nelson Leirner foi um dos fundadores da Rex Gallery, em 1966, em São Paulo, ao lado de Geraldo de Barros, Wesley Duke Lee, José Resende, Carlos Fajardo e Frederico Nasser, iniciativa de pura experimentações críticas e happenings. Não poderia ainda esquecer que em 1967 ele apresentou ao júri do Salão de Brasília um porco empalhado numa gaiola de madeira perguntando se aquilo era arte. Criou também releituras irônicas do construtivismo usando pele de vaca ou homenagem a Lucio Fontana fazendo composições com tecidos e zíperes. A ditadura militar também já foi referência inevitável em obras com a simbologia de fechaduras e macacos; sem falar no quadro O Timão (1967), em que representou os jogadores do Corinthians, seu time.

A história da arte, o circuito da arte e os temas contemporâneos do mundo sempre marcam presença nas criações de Nelson Leirner, mas o novo livro sobre o artista joga luz sobre sua produção recente.

O texto Abrindo o Jogo, de Agnaldo Farias, detém-se em dois trabalhos específicos do artista - Hobby, realizado desde 1995, é a coleção de peças de intervenções em convites de galerias, postais de museus e outros "produtos" do mundo artístico; e a sala especial do artista na 25.ª Bienal de São Paulo, de 2002, em que ele faz referência ao tema do jogo e ao campo da arte usando como mote uma partida velada de pingue-pongue (com o uso da mesa do esporte, uma peça em que colocou raquetes enfileiradas em caixa de acrílico e o som de uma partida). O crítico analisa as duas criações de Leirner e conclui que o artista "lidando com as coisas, desvelando o jogo aos quais elas pertencem, adentra a arena de coisas e jogos para reinventá-los, perseguindo a utopia de que com isso, quem sabe, também nós, extensão que somos de coisas e jogos, nos reinventemos".

Já o ensaio Quando o Tempo Pede Tempo: Nelson Leirner ou Das Vantagens de Ser 2000, da antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, trata, como diz o próprio título, do fato de o consagrado e premiado artista estar em plena forma na "virada do século". A globalização aparece como tema da série de mapas e atlas que Leirner criou, fazendo sua crítica - ou paródia, até - com uso de adesivos com carinhas de Mickeys e caveiras. Por fim, Piero Leirner debruça-se nas irônicas recriações da Monalisa de Da Vinci realizadas pelo artista, certamente uma grande marca de sua trajetória.

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