Marcos de Paula/AE
Marcos de Paula/AE

Nelson Leirner abre exposição em que interfere na imagem da Mona Lisa

Artista não recorre ao Photoshop para manipular a imagem mais famosa do Museu do Louvre

ROBERTA PENNAFORT - O Estado de S.Paulo,

11 de setembro de 2012 | 03h07

RIO - Mona Lisa, Mona Crespa; Mona Rica, Mona Pobre. Siliconada, com os pés para fora da moldura, os seios de fora, amamentando um bebê. De cabelo curtinho, careca, com feições de estrelas de cinema ou japonesa. O Photoshop vem fazendo misérias com a Gioconda de Da Vinci, possivelmente o quadro mais conhecido do mundo.

Nelson Leirner também já se apropriou da figura. Foi em 1999, por ocasião da Bienal de Veneza, na terra do mestre renascentista. Usando souvenirs comprados em Paris, ele pôs seu rosto em vagões de um trenzinho e nas bolinhas de fumaça que dele saíam. Em 2004, montaria para uma exposição estantes cheias de quinquilharias, entre elas, uma reprodução da tela.

O avanço da tecnologia fez com que ficasse cada vez mais comum a manipulação da imagem mais famosa do Museu do Louvre. Por e-mail ou no Facebook (do qual resolveu sair depois de um ano de acúmulo de pedidos de amizade e bem pouco conteúdo que lhe interessava), o artista se deparou inúmeras vezes com aquela mulher que permanecera imutável desde o século 16.

"Ela sempre foi um ícone banalizado, eu mesmo a tinha usado, mas de repente vi que havia um onda de manipulação da imagem digital. Banalizei ainda mais o que já era banal", diz Leirner, entre suas Cem Monas, exposição que será aberta amanhã na Galeria Silvia Cintra, no Rio.

"Ela estava tão impregnada tecnologicamente, e sempre na bidimensionalidade, no Photoshop. Eu pensei: vou fazer a metáfora da metáfora. Como Fellini, que para filmar num navio construiu um, em vez de gravar num navio que já existisse."

Artesanalmente, imprimiu novos contornos ao rosto da Mona Lisa impressa em seda, acrescentando-lhe materiais comprados em lojas populares da região da Rua 25 de Março e na Liberdade: brincos, colares, máscaras, perucas, maquiagem, adereços de cabelo, toda sorte de bugiganga.

"Eu quis a tridimensionalidade. Não sou artesão, mas procurei voltar ao processo artesanal. Com o computador, está tudo muito fácil hoje. Existe uma crítica à tecnologia, que automatiza tudo e faz com que as coisas fiquem todas parecidas", propõe.

"Ninguém liga mais para nada. O consumo iguala tudo. Quando você começa a ignorar o que se passa, como fica? Eu estava vendo a Paralimpíada e fiquei chocado: a sociedade não vê que a dignidade que aquelas pessoas têm ali precisa se estender para todos os aspectos do dia a dia, todos os campos da vida delas."

Leirner a colocou para pensar em cachorros quentes ou nela própria, com balõezinhos saindo de sua cabeça. Deu-lhe ar tropicalista, hippie, punk. Enquadradas em acrílico, as 100 Monas Lisas estão dispostas enfileiradas nas paredes da galeria como quadros de um filme. Por que 100? Porque foi a quantidade que coube na galeria.

"Agora, na minha idade, meu trabalho está muito mais ligado à minha relação com a memória. Usei muito da minha história com o cinema, de quando eu fazia trabalhos em super 8", explica Leirner, que completou 80 anos em janeiro e vem sendo instado a comemorar - começou com a retrospectiva na Galeria de Arte do Sesi, Nelson Leirner 2011-1961=50 Anos, que ficou três meses em cartaz ainda no fim do ano passado.

"É uma data que me amola. Mudou muita coisa na minha cabeça, tem um simbolismo forte que os 79 anos não têm", revela, mas sem se aprofundar no assunto. Ao interlocutor, assim como para o público que acompanha sua longa trajetória, as décadas parecem não pesar - assim como os patuás no pescoço (apito, figa, cruz, um pequeno cachorrinho shitsu, à imagem e semelhança do seu...).

De volta às Monas Lisas, ele chama a atenção para a obsessividade contida na série. O corte é na altura do busto, o foco é sempre o rosto. "É uma espécie de loucura, que não está presente na imagem da Mona Lisa. Essa banalização não tem significação nenhuma. Eu penso, por exemplo, em como seria a banalização, hoje, de um filme como Apocalipse Now, que já banaliza a Guerra do Vietnã, com toda a pirotecnia. Como o Coppola trabalharia em cima disso?", provoca.

"São trabalhos bem-humorados, mas em nenhum deles se brinca como na Mona Lisa e Crespa. Não me incomoda que façam o que quiserem com a imagem, só me faz refletir, querer rebater", conta.

CEM MONAS DE NELSON

Galeria Silvia Cintra. Rua das Acácias 104, Gávea, (21) 2521-0426.

2ª a 6ª, das 10 h às 19 h; sáb., das 12 h às 18 h. Grátis. Até 20/10.

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