Wilton Junior/AE
Wilton Junior/AE

Nelson Freire volta ao palco em que fez seu primeiro concerto em MG

Recital comemorou os 15 anos da série Música no Museu e os 60 anos de carreira do pianista

JOÃO LUIZ SAMPAIO, ENVIADO ESPECIAL, SÃO JOÃO DEL REY, O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2012 | 03h09

SÃO JOÃO DEL REY - A leiteria hoje é uma agência bancária. Do Hotel Hudson, sobrou pouco mais que a fachada - e do Café Rio de Janeiro, um esqueleto impessoal, agora ocupado por uma loja de departamentos. O café já foi o ponto de encontro antes dos concertos - e as famílias, então, cruzavam a ponte de pedra sobre o riacho e se arrumavam nas cadeiras de madeira do Teatro Municipal de São João Del Rey. De tantas noites, dona Aline se lembra de uma, 31 de maio, 1950.

O vestidinho branco, mãos dadas com o irmão também todo arrumado. Estava com 9 anos. E ainda assim era mais velha que o garoto pianista que subiria ao palco. Aos 5 anos, ele vinha de Boa Esperança, e logo partiria em direção ao Rio. Um talento notável, seus pais, "muito musicais", diziam. Ela própria não saberia dizer. Daquele dia ficou apenas a imagem daquele "menino lindo", que deixou todo mundo impressionado.

Dona Aline não costuma se prestar a saudosismos, o progresso, afinal, é assim mesmo. Mas na noite de sexta, "noite quente, apesar do inverno", não teve como interromper a memória. Na frente do teatro, o sorriso tenta disfarçar, mas entrega a "sem-gracice". Minutos antes, reviu aquele menino. Continua lindo - e é um senhor, agora. Ela seguiu outro caminho, optou pelo balé clássico. Mas nunca se afastou da música. Tem todos os seus discos e não hesita em chamá-lo de "um dos maiores do mundo". Tem certeza de que ninguém toca Chopin melhor do que ele. "Nelson Freire", ela repete o nome em voz alta. "Dá nem para acreditar que eu ia voltar a ver ele aqui, nesse teatro."

Freire chegou a São João no começo da noite de sexta. Foi direto ao teatro. Mal desceu do carro e já foi rodeado por amigos, que vieram à cidade para o recital - e por três equipes de televisão que desde o começo da tarde bloqueavam o trânsito na rua em frente ao teatro, no centro da cidade, ansiosas para registrar o retorno do "filho adotivo" da terra.

O recital comemora os 15 anos da série Música no Museu e, com dois anos de atraso, por conta de problemas de agenda, os 60 anos da estreia profissional de Freire, naquela noite de maio, aqui mesmo nesse palco construído em 1893. "É difícil lembrar de tudo", ele diz, ainda um pouco atordoado pelo movimento. O concerto foi parte de uma turnê de despedida antes de se mudar para o Rio. Boa Esperança, Varginha, Campanha, Lavras. A memória daqueles dias ficou registrada em um "albinho" feito pelo pai. "Mas eu me recordo da preocupação dele, que queria que eu dormisse à tarde, para não ter sono à noite, durante a apresentação. Mas, imagina, eu não dormia de jeito nenhum", conta, rindo.

"Onde está o Nelson?" As entrevistas foram interrompidas para que o piano, recém-chegado de São Paulo, fosse montado no palco. E ninguém acha Nelson Freire. A procura dura um instante, até que o som de um piano, vindo de uma sala ao fundo do palco, o entrega. O pianista foi procurar o instrumento em que tocou, há 60 anos. Mal deu tempo de tocar o trechinho inicial da sonata de Mozart e repórteres, cinegrafistas, amigos e funcionários do teatro se acotovelavam na salinha ao fundo do palco, para registrar o reencontro. De pé, Freire apenas observava, sorriso tímido no rosto, o antigo companheiro. Passou rapidamente aos mãos pelo teclado. Mais um pouco de Mozart, "só um gostinho".

De volta à conversa, o pianista diz que não se deu conta ainda da emoção. "Eu ainda preciso parar e perceber que estou aqui, que acabei de tocar no piano em que me apresentei nesse mesmo palco há 60 anos. Acho que só vou sentir tudo isso depois. A ficha ainda não caiu." No concerto, ele interpreta obras de Beethoven, Mozart, Villa-Lobos, Granados e Chopin. "Eu fui olhar o que toquei há 60 anos, um arranjo do primeiro concerto do Tchaikovski, dá para imaginar? Wagner, Liszt, e eu tinha só 6 anos! Não dava, enfim, para repetir o programa, mas vou pelo menos tocar a sonata de Mozart da qual toquei um trecho, a Marcha Turca, em 1950."

As lembranças de Freire daquele período são feitas de sensações. O olho pesado, carregado de sono, durante a última peça do recital. Ou então o barulho provocado pela mãe que, na sala do piano, abria o instrumento e limpava com uma flanela as teclas. "Eu então sabia que era o momento de estudar." Duas horas por dia, o que lhe permitiu "ter uma vida". Os irmãos haviam sido mandados para um internato. Mas a música, brinca, o "salvou". Se alcançou sucesso na carreira, diz dever tudo à família e às professoras, Nise Obino e Lúcia Branco.

Ele reconhece, o piano é uma atividade solitária. Mas ele se acostumou. Mais do que isso: aprecia momentos de recolhimento, precisa deles. "Todo dia, quando estou no Rio, caminho na praia. E é algo que gosto de fazer sozinho. Odeio quando alguém se convida para ir comigo", diz, encerrando a conversa e se dirigindo ao palco, agora vazio. Pede para ficar sozinho. E, quando as portas se fecham, dá para ouvir o início da sonata de Mozart, uma das peças no programa que apresentaria na noite seguinte.

Na tarde de sábado, horas antes do início da apresentação, o movimento no Municipal se limitava aos funcionários que acertavam os últimos detalhes técnicos da transmissão do concerto para o Cine Gloria, localizado na rua de trás do teatro, onde quem não conseguiu ingresso poderia acompanhar a programação.

No começo da noite, a rua em frente ao teatro foi fechada e um tapete vermelho foi estendido sobre o caminho de paralelepípedos para esperar Freire e uma lista de convidados que incluía autoridades como o governador Antonio Anastasia e o senador Aécio Neves. Ali do lado, um grupo de estudantes protestava contra o projeto da prefeitura de asfaltar ruas do centro histórico da cidade. Moradores, enfezados com o fechamento da rua, reclamavam junto. Queriam ver Nelson Freire, mas não conseguiram ingressos. "É noite para figurão só."

Freire subiu ao palco com cerca de quarenta minutos de atraso. Começou com a Sonata em Lá Maior KV 331, de Mozart, e a Sonata ao Luar, de Beethoven. No pequeno palco de São João, criou dois mundos inteiros, feitos a partir de uma riqueza de coloridos que, no Beethoven, ganhou tons introspectivos, em que se sentia o peso de cada nota na articulação de uma arquitetura mais ampla.

No prelúdio das Bachianas Brasileiras nº4, de Villa-Lobos, ele fez da melancolia, tristeza; da força, intensidade. Evocou todas as vozes da Alma Brasileira, interpretada em seguida. Granados, Chopin. Pouco mais de uma hora de música foi suficiente para repassar todas as qualidades do piano de Nelson Freire - o gosto pelo detalhe na construção do todo, a exploração dos coloridos, um senso de estilo traduzido em um toque extremamente pessoal. Veio então o primeiro bis, a melodia de Orfeu e Eurídice, de Gluck, sua eterna homenagem a Guiomar Novaes - e, de certa forma, àquilo que a música significa para ele. Ali, nota a nota, a ficha de Nelson parecia, enfim, ter caído.

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