Nelson Freira faz leitura envolvente de Mozart

Pianista se apresentou com a Orquestra Nacional Russa

O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2012 | 03h11

Ontem, no New York Times, um jovem músico recém-saído da Juilliard School se perguntava mais ou menos o seguinte: "Quando se toca o Réquiem de Mozart pela 17.ª vez em quatro anos você diz, claro, é uma obra-prima, mas foi pra isso que eu estudei tanto?" O tédio na repetição do mesmo repertório atinge todos os músicos. O pianista Nelson Freire - que anteontem solou o concerto n.º 20 de Mozart com a Orquestra Nacional Russa na Sala São Paulo - mostrou ao Estado o mesmo enfado do jovem músico de Manhattan ao confessar que não aguenta mais tocar repetidamente os concertos de Chopin e Brahms.

E o público? Este parece gostar de mais do mesmo. Aplaudiu freneticamente as três peças do concerto de abertura da temporada centenária da Sociedade de Cultura Artística. Independentemente da qualidade artística do que se passou no palco.

O ataque frouxo da orquestra russa sob o comando do uruguaio José Serebrier na pequena e genial Abertura Egmont de Beethoven fez pensar num certo enfado burocrático dos músicos russos neste repertório.

Nelson disse também que vai se refugiar este ano em Mozart, De Falla (Noches en los Jardines de España) e Villa-Lobos (Momoprecoce). Faz bem. Melhor faria se se concentrasse apenas em recitais. No concerto n.º 20 de Mozart, obra que mergulha no universo lírico na incrível Romanze central (o melhor momento da noite), Nelson seduziu todos os ouvidos. Naquela altura, os russos parecem ter começado a acordar - fizeram dignamente sua parte. Mas ficou a vontade de ver e ouvir mais o piano de Nelson, que relembrou Guiomar Novaes, sua pianista preferida, no extra, a Dança dos Espíritos de Gluck.

A regência de Serebrier permaneceu previsível, e correta. Mas os músicos, definitivamente, voltaram sacudidos. E fizeram uma leitura idiomática da Sinfonia n.º 8 do checo Dvorák. Idiomática porque ela tem tudo de russa, apesar de levar o apelido de Inglesa por ter sido encomendada por eles. Explica-se: a sinfonia deve ser vista como uma resposta musical do checo à quinta sinfonia de Tchaikovski, que ele assistiu em Praga em 1888. Impressionado, Dvorák decidiu escrever uma nova sinfonia e estreá-la em Moscou no ano seguinte.

As similaridades entre elas, claro, não são escancaradas, mas estruturais. Muito por causa dessa afinidade e outro tanto porque decidiram livrar-se da rotina, os músicos da Orquestra Nacional Russa fizeram da oitava sinfonia uma leitura empenhada e envolvente.

Crítica: João Marcos Coelho

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