Nelson ampliado duas vezes

Boca de Ouro e A Falecida recolocam em cena a gravidade soturna e subterrânea dos personagens de Nelson Rodrigues

O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2012 | 03h10

O final do espetáculo Boca de Ouro mostra o personagem transformado em enredo de escola de samba. A cena é reveladora da linha escolhida pelo diretor Marco Antônio Braz para a remontagem da obra de Nelson Rodrigues. No seu mutismo de figura de carro alegórico, Boca sugere uma parodia da carta testamento de Getúlio Vargas. O lendário bicheiro e criminoso parece dizer: "Nada receio. Serenamente saio da vida para entrar no Carnaval." A mesma irreverência dá o tom de A Falecida. Faz sentido na medida em que o chamado universo rodrigueano comporta todas as interpretações. Quando a escritora Edla van Steen lhe perguntou em entrevista "mas afinal, você faz ou não humor com as suas peças?", Nelson foi incisivo: "Humor? Faço. O fracasso do Leon Hirszman com A Falecida, no cinema, foi exatamente a falta de humor". Portanto, as peças que ele denominou de tragédias cariocas guardam um pouco das farsas irresponsáveis, outro rotulo inventado pelo autor; e vice-versa.

Boca de Ouro é o vilão atroz com uma dentadura do mais rico dos metais, o símbolo de poder. O rei do bicho em Madureira, zona norte, berço das escolas de samba Portela e Império Serrano, bairro de classe média e média baixa, dos devotos de São Brás, São José da Pedra e torcedores do clube Madureira, tanto faz caridade como mata. Astuto e cruel, desfaz casamentos e coleciona mulheres, se possível as recatadas como recompensa por ser filho de uma profissional de cabaré. O enredo entrelaça gestos sádicos, ciúmes ridículos e jornalismo sensacionalista. Boca é sinistro e absolutamente verossímil. A banalidade do mal como o fato de a liga das escolas de samba do Rio de Janeiro já ter sido dirigida por ex-militar torturador na ditadura. O lado viril caricato de Boca, destacado em montagens anteriores, desta vez recebe novo enquadramento quando Marco Antônio Braz o delineia na área do distúrbio mental. Esse anti-Charles 45, de Jorge Ben, anti-Malvadeza Durão, de Zé Kéti, malandros simpáticos dos morros, tem um olhar de psicopata que Marco Ricca transmite de forma brilhante. Como na composição Esse Cara, de Caetano Veloso, ele chega "com seus olhinhos infantis/Com os olhos de um bandido". Desfaz o estereótipo do cafajeste e constrói o predador distraidamente assustador.

O mesmo acontece com Zulmira, a falecida do título, que Maria Luisa Mendonça arrasta para além da histeria convencional numa interpretação incendiária com ela agarrada às redes do gol. Com sua voz poderosa, a atriz vai da suburbana cinzenta à voluptuosa femme fatale de vermelho e estabelece lógica de certos suicidas de morrer por vingança familiar. Faz parte do plano ter enterro de luxo. Ambos não têm limites e não sentem culpa, características dos psicopatas. Os espetáculos adquirem assim uma dualidade entre o espetacular (são coloridos, agitados, há gestos amplos, risos, efeitos visuais atraentes) e a gravidade soturna e subterrânea dos endemoninhados.

O risco permanente da abordagem escolhida por Marco Antônio Braz é deslizar para o excesso farsesco. Nelson é especialmente talentoso no jogo entre a frase de efeito e Dostoievski. A carnavalização segundo o ensaísta russo Mikhail Bakhtin é a linguagem simbólica para expressar o confronto entre o oficial, a convenção, os costumes e o seu contrário, o rompimento com a ordem institucionalizada. Fora isso, resta a estética do cineasta JB Tanko, um dos reis das chanchadas cinematográficas da velha Cia Atlântida nos anos 50 e 60. Braz tem talento e habilidade para encarar o desafio. O resultado de sua maratona cênica recém-iniciada é dos melhores.

Há colorido e vitalidade, amargura e o grande achado de um locutor narrar as rubricas (indicações) eloquentes nos seus traços desmesurados. Boca de Ouro e A Falecida, mesmo com desníveis ocasionais de interpretação, decorrentes da falta de maior tempo de vivência e trabalho conjunto do elenco, tem protagonistas de alto nível e surpresas como Livia Ziotti, que cresce no papel e se impõe com energia; assim como os solos bem executados de Rodrigo Fregnan (marcante no final de Boca), Lara Cordula, Jackie Obrigon, Claudinei Brandão (engraçado e enigmático), Leo Stefanini e do sempre sólido Gésio Amadeu. Nelson Rodrigues dizia ter a alma do subúrbio, "um estilo apaixonante de vida". Deixa, porém, como diz o diretor, espaço para se aprender algo que não se sabe exatamente o que é, mas se aprende.

Crítica: Jefferson Del Rios

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