Nélida Piñon investiga compulsão de Xerezade

Vozes do Deserto é o novo romance da escritora Nélida Piñon sobre a a saga da princesa Xerezade que, para não ser morta pelo califa, inventa histórias que resultaram na saga das Mil e Uma Noites. Para escrever o livro, Nélida passou os últimos cinco anos às voltas com a cultura árabe, lendo o Corão (livro sagrado dos muçulmanos) e estudando a história e a mitologia dos povos do Islã. O romance descreve minuciosamente sentimentos, ambientes e hábitos de um Oriente medieval, transporta o leitor para lá, apesar de, em momento algum, Nélida fazer seus personagens falarem ou contar as histórias que encantam o califa. "Jamais competiria com Xerezade. Seria desrespeitá-la e prezo muito esse tipo de hierarquia", diz Nélida, que fala apaixonadamente sobre sua nova criação. Vozes do Deserto trata do embate entre a imaginação e a tirania e os fatos têm irradiações, vêm embutidos no cotidiano daqueles personagens. O califa tem preconceitos irremovíveis e cabe à princesa vencê-los. Nunca se escuta o que ela diz, mas nos apropriamos do que ela pensa. Sabemos através da irmã e da escrava Jasmine, também fundamental, pois legitima relato de Xerezade. Ela conta histórias populares, embora a narrativa seja erudita." Seria a princesa uma representação da escritora e de todos os contadores de histórias? Com 16 livros, 11 deles de ficção e seis romances, ela desconversa. Fala de uma mitologia pouco conhecida do leitor brasileiro, embora impregnada no nosso imaginário. "Ao escrever, o maior trabalho foi dissolver o saber que acumulara em cinco anos. Era fundamental não me apegar a eventuais conceituações que iam ferir a narrativa", diz ela. "Evitei ser erudita. Cuidei para não me prender às citações, não ficar a me exibir." A escolha do tema foi uma forma de mitigar a dor da perda da mãe, no fim de 1998. Nélida se sentiu no dilema de não querer trair sua memória pelo medo de sofrer. Voltou-se para o mundo das mulheres árabes, muito antes de o Ocidente se preocupar com essa questões. Ela vinha do romance República dos Sonhos, em que narrava sua própria saga, a de imigrantes vindos da Galícia (uma das regiões mais pobres da Europa, no norte de Portugal, mas parte da Espanha) para fazer América. "Eu me devia esse livro, que deu muito menos trabalho que Vozes do Deserto. Em República dos Sonhos, eu tinha os fatos históricos, mas aqui, eu precisei passar pelo mundo teológico." Quem conhece as Mil e uma Noites sabe se Xerezade se salva ou não, mas Nélida, ao longo de 350 páginas prende a atenção e nos leva a um desfecho surpreendente. Ela fez mais de dez versões do texto, inclusive mais uma, no fim do ano passado, quando a editora Record já contava com o livro para seus lançamento de fim de ano.Vozes do Deserto - Editora Record, R$ 34,90

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