Zipi/EFE
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Nélida Piñon fala sobre o 'Livro das Horas'

Novo trabalho da escritora de 75 anos é um misto de memória, autobiografia e ensaio

UBIRATAN BRASIL - O Estado de S.Paulo,

04 Outubro 2012 | 03h10

Um dos inúmeros encantos da escritora Nélida Piñon detectados pelos amigos é o de estar sempre atualizada - nos assuntos gerais e nas fofocas. "Quando me perguntam como consigo tal proeza, respondo simplesmente: 'Sei muito porque não conto'", diverte-se ela, em conversa por telefone com o Estado. A fidelidade pelo silêncio é, de fato, um dos principais motivos que explicam a longevidade de suas amizades.

Mesmo assim, Nélida revela-se uma escritora comovente em Livro das Horas, misto de memória, autobiografia e ensaio, recentemente lançado pela Editora Record. Ali, combina reminiscências pessoais e de amigos próximos, permitindo que o leitor conheça detalhes de sua amizade de quase duas décadas tanto de nomes estelares da literatura brasileira (Clarice Lispector é uma delas) como do ainda pouco conhecido Gravetinho, cachorro que dela recebe muito carinho, no apartamento onde vivem, na Lagoa, no Rio.

O título faz referência aos livros de orações da Idade Média, que eram divididos em horas. "É muito significativo, porque a prece é o complemento do que expressa a palavra", comenta. "É uma obra sobre a memória, sim, mas não apenas individual: também coletiva, pois é necessária a presença do outro para existir a reflexão e aqui busco refletir sobre o amor, a morte, a desilusão, sobre o mundo, enfim."

Recém-nomeada embaixadora ibero-americana da Cultura (concedido em Cádiz, na Espanha), Nélida relembra, no livro, da delicada amizade de 17 anos que cultivou com Clarice Lispector. Há até um momento confessional, quando Clarice, pouco antes de morrer, revelara a intenção de ser sepultada segundo a tradição cristã. Nélida conta que o desejo não chegou a ser levado aos familiares da escritora, cujo enterro seguiu, então, os preceitos judaicos.

As revelações, portanto, não são inconfidências tampouco agridem os envolvidos - Nélida utiliza a arte de narrar para revelar sua visão de mundo a partir das artes dos amigos. O colombiano Gabriel García Márquez, por exemplo, é lembrado em um momento saboroso, em todos os sentidos. Retornando certa vez da então União Soviética, o escritor fez uma parada na Espanha onde dividiu com amigos uma iguaria presenteada pelo líder soviético Mikhail Gorbachev: dois quilos de caviar. No momento da degustação, no entanto, Gabo preferiu uma prosaica sopa de galinha oferecida pela dona da casa.

O livro assemelha-se muitas vezes a um diário, no qual sua proprietária relata acontecimentos fortuitos (como se lembrar de árias de óperas famosas ao avistar, na rua, pessoas que se assemelham a personagens) e também fatos históricos, como a ousadia de intelectuais como ela que, inconformados com a censura à criação imposta pela ditadura militar (1964-1985), formalizaram um abaixo-assinado que foi levado diretamente ao ministério da Justiça. Se isso hoje seria um fato corriqueiro, naquela época poderia representar cadeia e até morte.

A finitude, aliás, é outro tema recorrente na obra. Aos 75 anos, Nélida mantém intactas a beleza e a inteligência. "Mas não posso me enganar, o que me preocupa é me preparar para a morte, pois não temos mestre, alguém que nos prepare", observa. "A morte é a despedida não apenas das pessoas, mas também dos objetos que você ama, que herdou da família, de amigos. Todos somos responsáveis também pela memória de nossos objetos."

Não se engane, porém, quem acredita estar diante de uma mulher pessimista - Nélida devota muita paixão pela vida e pelos relacionamentos, especialmente pelo cachorro de estimação, Gravetinho. "Ele é muito astuto, sempre me surpreende quando volto de viagem e vou encontrá-lo", diverte-se a autora. "Animais são muito astutos, mais até que o Ulisses de Homero."

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