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Negligência contagiosa

 Não sei quem foi que começou, mas, de uns tempos pra cá, a imprensa tem replicado sem reservas uma informação em suas matérias sobre a dengue. De acordo com uma infinidade de reportagens, a Organização Mundial de Saúde classifica como “epidemia” quando há mais de 300 casos de dengue por 100 mil habitantes (alguns dizem que a classificação é do Ministério da Saúde, e não da OMS).

Vanessa Barbara, O Estado de S. Paulo

11 de maio de 2015 | 04h00

Só que, até onde pude apurar, nenhum jornalista se deu ao trabalho de procurar a fonte primária desse dado, limitando-se a replicar outros veículos de imprensa. Numa busca, a única coisa que consegui saber com certeza é que o Ministério da Saúde afirmou que mais de 300 casos/100.000 habitantes caracteriza “alta incidência” da doença. E só. 

Não há dúvidas de que o surto deste ano é grave (a despeito das evasivas do governo) e que podemos chamá-lo de epidemia, mas só porque a definição do termo é ampla o suficiente para permiti-lo; não porque essa seja uma categoria usada por algum órgão oficial. (Se alguém de fato tiver esse dado, por favor compartilhe e eu mordo a língua. Não vale citar a imprensa, tem que ser a fonte original).

Tais deslizes podem parecer pequenos, mas são perigosos porque dão respaldo a todo tipo de negligência e má-fé jornalística. Os veículos brasileiros não costumam ter departamento de checagem, portanto cabe ao repórter certificar-se duplamente da origem e da veracidade da informação que repassa. 

Mesmo o New York Times, com seu torturante departamento de checagem, às vezes publica mitos como se fossem fatos, à la Facebook. Encontrei um desses erros há um ano em uma matéria sobre hábitos de leitura dos mexicanos. O autor citava um certo estudo da Unesco que nunca existiu, mas que foi vastamente noticiado, e o descuido passou batido pela checagem. Meu trabalho detetivesco acabou gerando uma errata. (Fiquei feliz porque, dessa vez, a culpa não era minha). 

Anos atrás, a imprensa afirmou que os árabes liam, em média, seis minutos por ano, segundo um estudo da Unesco. O jornal Al-Akhbar foi checar essa informação e não obteve sucesso. Um funcionário da Unesco entrevistado disse que a entidade “é uma dessas organizações às quais as pessoas gostam de atribuir estudos estatísticos quando desejam dar credibilidade a algo”. Cauteloso, o Al-Akhbar entrou em contato com jornalistas e acadêmicos que acabaram confessando ter obtido a informação de segunda mão. 

“Para uma estatística repetida com tanta frequência, é peculiar que não se consiga traçar sua origem, mas é ainda mais peculiar que as pessoas estejam tão dispostas a repassá-la como um fato”, afirmou a jornalista Leah Caldwell, que assina a matéria.

Alguns veículos de imprensa se apressariam em classificar tal hábito como uma epidemia. 

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