Neandertal 2.0

Na semana da mais dramática batalha da política americana, a questão do seguro saúde que pode definir a era Obama, o centímetro quadrado das páginas impressas e online foi arduamente disputado por três escândalos sexuais.

Lucia Guimarães, NOVA YORK, O Estadao de S.Paulo

22 de março de 2010 | 00h00

E, antes que alguém me venha com o reducionismo fácil da gozação ao puritanismo americano, os três casos são de uma sordidez exemplar em qualquer cultura.

Mas os escândalos têm outro ponto em comum. Foram amplificados de maneira exponencial pelas novas mídias.

Para comemorar a esperada volta de Tiger Woods a um grande torneio de golfe, uma de suas múltiplas amantes, a atriz pornô Joslyn James, postou online seus torpedos, enviados no segundo semestre do ano passado. Da sua casa e na companhia dos filhos, o maior atleta da história do golfe disparava pérolas como - atenção, baixaria a caminho - "Quero espancar você, bater na sua cara e tratar você como a minha prostitutazinha suja". Essa é uma das frases que podem ser citadas num jornal-família.

Imagine entrar na adolescência enfrentando acne, insegurança e, de quebra, ter de compartilhar com o restante do planeta a espantosa falta de classe do pai. Não há fortuna que garanta o futuro sucesso da terapia dos filhos de Tiger Woods.

E o homem que quase foi vice-presidente dos Estados Unidos e não esteve muito longe de se tornar um candidato viável à Presidência em 2008? John Edwards, o ex-senador democrata, mostrou de maneira inequívoca o seu ardor pela defesa dos trabalhadores. Já em plena campanha, a semanas das eleições primárias de Iowa, presenteou sua trabalhadora favorita com vários minutos de cunilingulus enquanto ela, visivelmente grávida da filha cuja paternidade ele negaria por mais de um ano, filmava em close up. O vídeo foi gravado quando a mulher de John Edwards, Elizabeth, tinha sido diagnosticada com metástase de câncer de mama.

Pausa para o antiácido.

Sandra Bullock, a namoradinha da América. Varreu vários prêmios da temporada até chegar ao primeiro Oscar e, a cada estatueta, agradecia ao marido lacrimejante na plateia. Por causa dele, disse a atriz, seu trabalho no cinema estava melhor. Pois enquanto Sandra trabalhava no set em Atlanta, o maridão motoqueiro que atende pelo nome de Jesse James e mentirosamente reclama parentesco distante com o lendário assaltante do século 19, estava transando com uma stripper, tatuada da testa aos pés, que pode ser encontrada online fazendo poses em uniforme nazista.

Sandra Bullock sabe que não mereceu o Oscar deste ano pelo papel no filme Um Sonho Possível. Meryl Streep, que também concorria, consegue transmitir mais consistência dramática de olhos fechados. Mas Sandra Bullock foi recompensada por trabalhar duro, atrair bilheteria, por fazer o jogo da indústria do cinema sem se queixar. E também por ter o senso de humor que a motivou a ir buscar, dias antes do Oscar, o prêmio Framboesa do Ano, pela pior atuação no medíocre Maluca Paixão. Tive duas oportunidades de entender como é difícil desgostar de Sandra Bullock, mesmo quando não consigo entender como essa mulher inteligente e cosmopolita, criada por uma cantora de ópera alemã e fluente na língua materna, aceitou certos papéis.

Na primeira vez que fui ao seu encontro para uma daquelas entrevistas de junkets, quando o ator fala com um desfile de repórteres de toda parte, apareci no fim. Nova York havia sido paralisada por uma nevasca. Consegui caminhar na Park Avenue deserta para o local da entrevista e, quando cheguei lá, encontrei a atriz, ao fim de oito horas de blablablá, num bom humor inacreditável. Ela não perdeu oportunidades de fazer piada e a gravação teve que ser interrompida por um acesso de riso nosso.

Pois o sorriso contagiante de Sandra Bullock estará amarelado por muito tempo pela sordidez do comportamento de seu, espero, ex-marido. Todos os detalhes foram perpetuados pelas mensagens de celular que a stripper vendeu por U$ 30 mil para uma revista, pelo fácil acesso aos sites que vendiam os serviços da moça.

As novas mídias não inventaram, é claro, o desejo sexual, a vontade de mentir ou correr riscos. Mas, ao eliminar a transação pessoal e imprimir enorme velocidade à interação, parecem provocar uma suspensão psicótica do senso comum. Os três escândalos da última semana praticamente foram oferecidos aos repórteres. É como se John Mitchell, o ministro da Justiça de Richard Nixon, tivesse usado o serviço de classificados Craigslist para contratar arrombadores para Watergate.

Um professor de psicologia evolucionária de Londres tem defendido a ideia de que a monogamia masculina reflete maior inteligência porque se trata de uma "novidade" da evolução e, portanto, exige maior capacidade de adaptação biológica. Não sei não.

Quem consumiu todo o noticiário recente sobre os escândalos teria dificuldade de aceitar a lição do professor.

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