Navalha sonora

Um dos maiores violonistas do País, Zé Barbeiro grava, ao vivo, seu 2º disco autoral

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2011 | 00h00

O poder da música já fez com que várias pessoas abandonassem (futuras) carreiras em outras áreas. Chico Buarque largou a arquitetura; João Bosco, a engenharia; Edu Lobo, o direito; Guinga, a odontologia; Noel Rosa, a medicina. Embora nunca tenha pensado em enveredar por caminhos acadêmicos - mesmo sob forte pressão do pai -, em 1995 o alagoano José Augusto Roberto da Silva deixou de vez seu ofício primeiro, a barbearia, para se dedicar exclusivamente ao ritmo, às melodias, harmonias, contrapontos e "baixarias" de seu violão de sete cordas, mas manteve as origens no apelido.

Contemplado pelo edital do Rumos Música Itaú Cultural, amanhã Zé Barbeiro grava ao vivo seu segundo disco solo, que será lançado em agosto deste ano, intitulado No Salão do Barbeiro. No palco, ele estará rodeado de Alexandre Ribeiro (clarinete), Rodrigo Y Castro (flauta), Fabrício Rossil (cavaquinho) e Léo Rodrigues (pandeiro), mesma trupe que já o havia acompanhado em Segura a Bucha, primoroso álbum de estreia, viabilizado em 2009 pelo Projeto Pixinguinha, da Funarte.

Se o disco anterior já combinava diversos gêneros com um instrumental competente para as melodias venenosas e as harmonias malucas - no melhor sentido dos termos - de Zé Barbeiro, sendo capaz de levantar qualquer um das cadeiras, é de se imaginar o que vem neste próximo trabalho, já que o compositor e violonista promete algo "mais dançante". "Serão músicas ligeiras, principalmente choro, mas também teremos gafieira, xote, baião, frevo, maxixe", diz Zé Barbeiro. Não à toa, inspirado na brincadeira do título do disco em referência também aos salões de gafieira, o show de amanhã terá no palco a presença de casais de bailarinos.

Assim como em Segura a Bucha, que trazia temas de Zé Barbeiro com nomes bem-humorados, como Clarinetista Enchendo o Sax, Chorâmbulo e Bafo de Bode (esta última em parceria com o craque Alessandro Penezzi), os títulos de No Salão do Barbeiro mantêm a mesma pegada de brincadeira, como Sessedentário, Trinca Ferro e Koolongo.

Hoje com 59 anos, Zé Barbeiro tem cerca de 160 composições, fala sério sobre a intenção de ainda gravar todas e brinca dizendo achar que a vida não lhe dará tempo de chegar às 300. Habitué das rodas do Ó do Borogodó, onde se apresenta às terças-feiras, e do Bar do Cidão, às sextas, ambos na Vila Madalena, Zé Barbeiro tem em sua matriz musical o choro, mas passeia com naturalidade por uma infinidade de estilos. "O choro e o samba vêm em primeiro lugar, mas eu gosto de bolero, tango, música japonesa e italiana. As pessoas até me perguntam se, com toda essa estrada, eu não penso em dar aulas. Até penso, mas nunca vou largar o bar e a noite, na diversão que é tocar com os amigos", diz.

Aventura. Representante de uma linhagem de verdadeiros monstros do violão como Dino 7 Cordas (1918-2006), Raphael Rabello (1962-1995) e Luizinho 7 Cordas, Zé Barbeiro se aventurou no instrumento - a contragosto do pai - nos anos 1960, ainda na barbearia do patriarca. Em meio à efervescência do iê-iê-iê, aprendia os primeiros acordes com O Calhambeque, versão de Erasmo Carlos consagrada por ele e Roberto. "Todo mundo que ia à barbearia tocava, era simples e eu comecei a imitar os acordes. A música é fraca demais. Como o cara conseguiu ganhar tanto dinheiro com aquilo?", diz o músico fazendo o turrão, reconhecido no meio musical apenas como uma faceta do generoso e simples Zé Barbeiro.

"Apesar daquela cara séria, de poucos amigos (tipo!), é um dos músicos mais agradáveis com quem já trabalhei. Cobrão nas harmonias e na execução de seu instrumento, tem um ouvido privilegiado, captando tudo, "de prima". E além disso, é um grande contador de casos - talento cada vez mais raro entre virtuoses do violão", diz Nei Lopes.

O sambista é apenas um dos grandes com quem Zé Barbeiro teve o privilégio de dividir os palcos. Autodidata e intuitivo, estimulado por João Macacão, comprou seu primeiro sete cordas e começou a participar de festivais na década de 1970. De lá pra cá, segue sendo praticamente um anônimo para o público, mesmo tendo tocado com Sílvio Caldas, Elizeth Cardoso, Altamiro Carrilho, Zeca Pagodinho, Noite Ilustrada, Dona Inah, Batatinha, entre outros. Nomes apenas comprobatórios de que Zé Barbeiro, há tempos, deve figurar no panteão dos que tratam a música com a fineza que ela merece.

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