Naum Alves de Sousa fala sobre o grupo Pod Minoga

Para o diretor, os espetáculos tinham defeitos, 'mas a criatividade era tanta' que eles ficavam em último plano

Da Redação,

24 de junho de 2008 | 12h09

"Tudo começou em 1964 na FAAP, onde comecei a dar aulas de artes plásticas para crianças que depois evoluíram para atividades teatrais e se estenderam aos adolescentes. No início da década de 1970, quando saí da FAAP, abri o primeiro estúdio de artes plásticas e teatro numa pequena casa de vila na Rua Mato Grosso, onde fizemos exposições e espetáculos. Ainda sem nome, nascia o grupo que viria a se denominar Pod Minoga. Quando a proprietária pediu a casa, tentamos uma experiência de teatro ambulante e nos apresentamos em residências de pais dos alunos. Em seguida, alugamos o barracão, antiga oficina de conserto de carros, na Rua Oscar Freire, onde eu decidi morar. Por razões econômicas, ou eu morava ali ou não teríamos um lugar para continuar nossas atividades. O local, coberto por grandes placas de cimento amianto, não tinha ventilação, era muito frio no inverno e infernalmente quente durante o verão. Mas a fantasia faz milagres. Eu me instalei numa extremidade e construímos uma arquibancada e um tablado que era o nosso palco, obra de um dos antigos alunos, John Orberg, que tinha ido morar nos EUA e vive em Nova York há muitos anos. Nossos sonhos de Broadway foram resolvidos à base de chita, miçangas, strass, plumas, tesouras e muita cola. Imaginação, criatividade e trabalho. No barracão da Oscar Freire sentimos a necessidade de batizar a trupe, não dava mais para trabalhar sem um nome. O acaso nos ajudou. Freqüentamos anos a fio o apartamento de Dona Anna, polonesa, mãe da Mira Haar. Todos já haviam sentado numa determinada poltrona, ao lado de uma estante. Em uma das prateleiras, bem na altura de nossos olhos, ficava, entre muitos outros, um livro chamado Café Pod Minoga, um romance polonês. Ninguém jamais tinha tocado no volume nem comentado nada a respeito. E foi naquele apartamento que aconteceu a reunião para definir o nome do grupo. Depois de alguns copos de Ki-Suco gelado, enquanto discutíamos nomes e mais nomes - uma lista imensa -, alguém sugeriu de farra: Pod Minoga. Todos já tinham visto o título do livro. Era nossa intenção, desde o começo, batizar o grupo com um nome sonoro. Dona Anna Haar explicou que, em polonês, Minoga significava sardinha ou algum outro peixe pequeno. E ela continuou: "O Café Pod Minoga era um café de Varsóvia e o livro, um romance sobre seus freqüentadores." O nome sonoro agradou em cheio e acabou escolhido por unanimidade. Foram cinco os fundadores: eu, Mira Haar, Carlos Moreno, Tacus (Dionísio Jacob) e Flávio de Souza. Esporadicamente , para levantar fundos paras as peças, realizávamos exposições de artes plásticas. Quadros, bonecos, móbiles, tudo muito colorido. Como todos os envolvidos tinham formação em artes plásticas, os espetáculos, praticamente sem textos escritos, exploravam muito o aspecto visual. E também o musical. As coreografias, hilárias e precárias, eram inventadas por nós mesmos. Não podíamos pagar profissionais, coreógrafos, iluminadores, etc. E também, é verdade, queríamos fazer tudo, "imitar" os filmes musicais. Nossos refletores, latinhas com lâmpadas dentro, sempre estouravam, esquentavam demais. Os espetáculos tinham muitos defeitos, mas a criatividade era tanta que as falhas técnicas ficavam em último plano, eram incorporadas como parte da comicidade. O Pod Minoga foi uma experiência marcante, decisiva em minha vida. Lá experimentei e exerci com alegria e liberdade todas as funções que o processo teatral pede, fui contra-regra, operador de som e luz, diretor, costureiro, figurinista, pintor, ator, cenógrafo, dramaturgo. Aprendi a viabilizar as coisas, de um jeito ou de outro."

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