Natureza como palco

O premiado arquiteto François Valentiny fala sobre anfiteatro construído em Trancoso

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2012 | 03h11

O primeiro encanto surgiu na forma de uma simetria assimétrica. Há três anos, o arquiteto luxemburguês François Valentiny - autor de projetos como a Haus für Mozart de Salzburgo -, esteve pela primeira vez em Trancoso e, passeando pela cidade, encontrou nas pequenas casas que rodeiam o célebre Quadrado uma lógica própria. "Elas estão ali, no entorno do enorme gramado, a igreja no centro. Mas nada é verdadeiramente simétrico nessa disposição; a forma é o que menos importa. Sou fascinado pela arquitetura sem arquitetos, pois ela está preocupada, antes de mais nada, com a escala. E é isso que me interessa", diz.

Desde então, Valentiny tornou-se presença constante na região - paixão que, no último ano, se tornou possibilidade de construir ali um projeto seu. Ao lado de Sabine Lovatelli, do Mozarteum Brasileiro, e de empresários ligados à região, idealizaram o projeto de um festival, o Música em Trancoso, cuja primeira edição se encerra neste fim de semana, após sete dias de concertos e aulas. No fim de 2010, percorreu a região em busca do local para erguer o anfiteatro que serviria de palco para o evento. A primeira ideia que lhe passou na cabeça foi usar o cânion à beira da praia. "A acústica natural é incrível e ali você fica envolto pela rocha, o que levaria a um efeito duplo: de um lado, está protegido; de outro, aberto para o mar, o horizonte, que é o começo do sonho. Sonharíamos com a música e com a paisagem."

A intenção de construir no cânion, no entanto, esbarrou na legislação de proteção ao meio ambiente - e as permissões não ficariam prontas a tempo do início do festival. Assim, ele e sua equipe buscaram um plano B. "A pergunta que me coloquei foi: como erguer uma construção que carregue dentro de si todo o sonho, a ilusão de termos um festival de música nessa região?"

Foi assim que surgiu o anfiteatro que, na última semana, abrigou apresentações de grupos como a Sinfônica Juvenil da Bahia e artistas como as irmãs pianistas Katia e Marielle Labèque. "O platô em que construímos, com vista para o mar, exigiu alguns cuidados com a acústica. Precisávamos de paredes, claro, mas pensei em um vaivém de formas com o mesmo ângulo. No que diz respeito à cor, quis algo que contrastasse com o verde mas, ao mesmo tempo, dialogasse com o ambiente - daí o tom que se aproxima ao das falésias."

Harmonia. O trabalho de Valentiny tem como uma de suas marcas a relação com a natureza. A Haus für Mozart, por exemplo, se alinha ao pé da montanha que divide Salzburgo; seu projeto para a representação de Luxemburgo na ExpoXangai de 2009 abria-se para o entorno e foi todo construído a partir de material reciclado. Na impossibilidade de trabalhar no cânion de Trancoso, o que faria de um acidente natural parte indissociável do projeto, como pensou a ligação com o meio ambiente na hora de projetar o anfiteatro?

"Criar um projeto para uma paisagem urbana exige a capacidade de se adaptar a um espaço preestabelecido. Mas, quando se tem a natureza como pano de fundo, o processo é diferente", explica Valentiny - e, a partir desta distinção, ele discute aqueles que podemos definir como os dois credos principais de seu trabalho. "Em primeiro lugar, há aquele fascínio pelo trabalho com escalas. E, depois, acredito que a palavra-chave seja harmonia. Pode ser entre duas pessoas, por exemplo. Eu não preciso concordar com você, mas devo respeitá-lo. Daí surge a possibilidade do convívio, do diálogo. É o mesmo no caso da arquitetura. Respeitar a natureza é fundamental, é a maneira de fazer duas propostas distintas conviverem. Um teatro à beira da praia? São ideias muito diferentes, mas podem conviver. Em certa medida, meu trabalho aqui foi encontrar o espírito do projeto, o espírito do local - e transformar aquilo que é oposto em complementar."

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