Nathália Timberg vive no palco seu primeiro Beckett

Atriz une-se à cia. Club Noir para a empreitada

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

28 Janeiro 2014 | 19h30

Quando o telefone tocou, Nathália Timberg precisou de algum tempo para responder. Do outro lado da linha, o diretor Roberto Alvim, da cia. Club Noir, fazia-lhe uma proposta para encenar Samuel Beckett. Seria sua primeira incursão pela obra do autor irlandês em seus 60 anos de carreira. Antes de dizer o que acha, ela espera. Pausa. Leva três segundos em silêncio. E só então aceita. Não como quem decide. Mas como se cedesse a um chamado: “Ah, mas aí fica muito tentador...”, disse.

Na semana em que vai ao ar o último capítulo de Amor à Vida, novela da qual participa, Nathália tem as horas contadas. Passou por São Paulo no domingo e concedeu toda a entrevista sentada em uma poltrona para não se cansar ainda mais. Enfrenta uma árdua rotina de gravações. E, apenas naquele dia, já havia feito três ensaios da peça antes de parar para a conversa. Mas a atriz parece gostar desse clima algo tumultuado que antecede a estreia de Tríptico Samuel Beckett, que chega ao CCBB na sexta. “É o período que mais amo em um trabalho, esse dos ensaios. O momento das descobertas, da procura, da troca”, diz ela. “E como em Beckett não há texto raso, as emoções nele não se esgotam, há sempre uma vibração nova.”

Existe novidade no que o autor oferece à atriz e também no seu contato com essa companhia de atores – comprometida com um teatro de experimentação. “Muita gente acha que eu, essa criatura terminal, não teria diálogo com o que se está fazendo aqui”, graceja ela. Mas Nathália não é a única a transitar por zona desconhecida nessa montagem.

O próprio Club Noir ousa lançar-se por outro caminho. “Esse texto vem para forçar o grupo a sair da sua zona de conforto”, pontua o diretor. Desde a montagem O Quarto (2008), a companhia forjou um sistema cênico bastante reconhecível: momentos de completa escuridão, iluminação rarefeita, falas pausadas e movimentação econômica.

Toda essa atmosfera diáfana vai, indubitavelmente, ao encontro do que está proposto pela escrita de Beckett. “Mas como eu iria fazer para dar forma ao texto sem reafirmar o que já estava sendo colocado por ele?”, questiona Alvim. “Era importante criar algum tipo de tensão ou ruído entre a encenação e o texto”, conclui.

Em Tríptico Samuel Beckett não haverá penumbra. Nem sombras. “Tudo será menos hierático, menos solene”, observa o encenador. Diante da luz, três atrizes – além de Nathália, Juliana Galdino e Paula Spinelli estão no elenco – tentam dar corpo a um fluxo incontrolável de linguagem. Uma criação em que não há propriamente uma história a ser contada. Apenas esboços narrativos: descrições de jogos mentais, reminiscências da infância do narrador. Lampejos de suas relações familiares ou conjugais. “Passagens que servem muito mais para produzir intensidades do que para narrar efetivamente”, comenta o encenador, que também assina a tradução e a adaptação.

A presença de três mulheres de idades diferentes em cena cria um enigma: Não são figuras distintas. Algo as une. Mas também não se trata de uma única mulher visitada em fases da vida: a infância, a maturidade e a velhice. É mais complicado que isso. Como a noção de individualidade não se constitui nesses textos, não existem propriamente personagens. “Não da maneira como os conhecemos, com uma gênese e uma motivação definidas”, ressalva Nathália. “A procura de Beckett é por nomear o inominável, por encontrar uma forma exata de dizer.”

As três novelas visitadas no espetáculo não foram concebidas para o teatro. Escritas na fase final da trajetória de Beckett, nos anos 1980, Para o Pior Avante, Companhia e Mal Visto, Mal Dito são mostras de uma literatura em que os gêneros se confundem. Onde convivem traços do drama, da prosa de ficção e da poesia.

Parte da crítica considera o conjunto como uma resposta do escritor à sua trilogia Molloy, Malone Morre e O Inominável – romances que escreveu no pós-guerra. As obras podem ser lidas ainda como um desdobramento de seus experimentos da década de 1960. À época, o autor de Esperando Godot já lidava com uma problemática semelhante. Optava, porém, por textos mais breves, reduzidos a não mais do que frases ou parágrafos.

A despeito das dificuldades de encenação, outros artistas já se arriscaram pelos textos dessa última trilogia beckettiana: Gerald Thomas no teatro La Mamma de Nova York. A cia. Mabou Mines, reconhecida como expoente do teatro avant-garde norte-americano.

Para além da recusa ao tom crepuscular, uma das diferenças da atual versão em relação a esses experimentos anteriores está na escolha de mulheres para protagonizar a obra. Ainda que não possuam nomes no original, lá é nítida a presença masculina. “A simples presença de um homem já evoca, automaticamente, um mecanismo de sentido, um tipo de discurso intelectual. A mulher, ao contrário, é puro enigma”, considera o diretor.

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