Nathalia Thimberg volta arrebatadora

Dos palcos e das telas de televisão, Nathalia Timberg é uma dama. O rosto de feições européias realça a voz de tessitura grave. Os gestos são comedidos, elegantes, e misturam-se a intervalos reflexivos entre as frases. Parece que veio ao mundo talhada para representar heroínas trágicas. É verdade. No início da carreira, década de 50, pleiteou e conseguiu uma bolsa do consulado francês para aprimorar em Paris o legado dos dramaturgos gregos. O que é menos comum é afirmar que ela tem verve de sobra também para fazer rir. Sim, certamente um riso à altura de sua elegância. E a prova dessa Nathalia que faz rir é o espetáculo A Importância de Ser Fiel, em cartaz no Sesc Vila Mariana, com direção de Eduardo Tolentino, à frente do grupo Tapa. Comédia refinadíssima e na contracorrente das montagens apelativas e gastas de sexo e palavrões, leva a assinatura do inglês Oscar Wilde, que fazia brotar de sua pena uma visão mordaz da sociedade vitoriana do século 19. Uma das personagens mais brilhantes do texto é Lady Bracknell, socialite da época que considerava "berço mais importante que fidelidade". Nathalia vem interpretando Bracknell sob elogios rasgados. Num fim de tarde chuvoso deste mês, no intervalo de duas sessões do espetáculo, a reportagem do Estado encontrou-se com a atriz no camarim, para um bate-papo que acabou durando duas horas e meia. Ela diz que o jogo irônico proposto por Wilde e a crítica exacerbada ao melodrama ajudaram a nortear a composição da personagem. "Lady Bracknell tem uma forma rebuscada de falar. Ela gosta de se ouvir falar e solta pérolas o tempo todo." Bracknell é um dos expoentes no texto da crítica feroz contra as elites e, segundo a atriz, não deixa pedra sobre pedra. "Trata-se de criticar uma sociedade que molda tudo a seus interesses e padrões e considera que o importante é tão somente a renda. A peça é de uma atualidade incrível, porque elite é elite em qualquer época, não é?" E arremata, rindo: "Pouco depois da estréia dessa peça, houve o processo em que ele foi preso e praticamente o matou. A elite se vinga... quando pode." Nathalia destaca a direção lúcida e criativa de Eduardo Tolentino. "Adoro trabalhar com ele, porque o processo acontece passo a passo. Tolentino permite que o ator se desenvolva dentro da obra. Não tenho o hábito de partir sozinha para o trabalho. Leio muito antes, me alimento da obra, do autor, da sociedade, mas procuro não saber nada, antes, sobre a cena." Universal - Nos últimos anos, Nathalia Timberg foi protagonista em montagens de importantes textos estrangeiros: Meu Querido Mentiroso, de Jerome Kilty, Letty e Lotty, de Peter Shaffer e Conduzindo Miss Daisy, de Alfred Uhry. Em A Importância de Ser Fiel, ela divide o palco com Etty Fraser, Chico Martins, Brian Penido, Dalton Vigh, Guilherme Sant´Anna, Eloísa Cichowitz e Bárbara Paz. Em 48 anos de carreira, representou desde os franceses Marguerite Duras a Sartre aos americanos Arthur Miller e Eugene O´Neill. "Não se pode viver numa tora, se a comunicação hoje em dia é permanente com o restante do mundo", declara. "A boa dramaturgia é universal. E isso não nos faz perder as raízes; ao contrário, nos faz perceber mais as próprias raízes." Justiça seja feita, ela também atuou em inúmeras peças de autores nacionais, inclusive no espetáculo que marcou o início de sua carreira profissional, com peça de Nélson Rodrigues, Senhora dos Afogados. Nathalia lembra também um dos momentos mais bonitos de sua carreira: O Pagador de Promessas, de Dias Gomes, direção de Flávio Rangel, TBC, 1960. Carioca, pai holandês e mãe belga (falavam francês em casa), e segunda de três irmãos, Nathalia formou-se na Escola de Belas Artes e iniciou carreira no teatro universitário dos anos 40. Em 1951, depois de obter bolsa de estudos do consulado francês, foi para Paris. Estudou na escola dramática fundada por Jean-Louis Barrault. De volta ao Brasil, aceitou convite de Adolfo Celi, em 1955, que a levou para o TBC, ligação que manteve até 1962. Na televisão, a carreira decolou com um sucesso estrondoso. Um de seus primeiros trabalhos foi O Direito de Nascer. Fez novelas marcantes, encarnando vilãs inesquecíveis com sua forte presença. "Prefiro dizer que fiz grandes antagonistas do que personagens más." Quem há de esquecer a terrível Juliana de A Sucessora (1978) ou a pedante Constância Eugênia de O Dono do Mundo (1991) ou, ainda, a inescrupulosa e amarga Idalina, de A Força de um Desejo (1999)? "Um dos prêmios mais bonitos que recebi em minha vida veio de um porteiro, à época de O Dono do Mundo. Eu ia passando na rua e ele disse: ´Que mulher horrorosa, parabéns!´" "Como é difícil eu estar num só trabalho, já estou entrando no próximo espetáculo, Mrs. Klein, de Nicholas Wright", anuncia a atriz. Nathalia Timberg vai interpretar a psicanalista Melanie Klein. "Interessa-me não só a profissional, mas a mulher. A peça enfoca um momento de ruptura na vida de Klein, em que ela se depara com a filha e com outra psicanalista mais jovem." A peça fez sucesso em Londres e Nova York. No Brasil, vai ser novamente dirigida por Eduardo Tolentino, que tinha feito uma bela montagem com o Tapa em 1993 e batizada de Senhora Klein. Nathalia nunca se deitou num divã, mas fez várias abordagens sobre o tema para orientar seus trabalhos e cita sua "grande amiga lacaniana, Betty Milan (autora de A Força da Palavra, A Paixão de Lia, O Papagaio e o Doutor)". Em 1994, a atriz protagonizou, com texto da psicanalista e escritora, o texto Paixão e ficou impressionada com a qualidade do roteiro, misto de prosa, poesia e música. (A poesia, aliás, é uma grande parceira da atriz que, nos anos 60, na TV Excelsior, tinha o programa Nathalia Timberg e Você, com cinco minutos diários de poesia "dita, não declamada", como lembra) "Tenho um apreço grande pela palavra, principalmente porque nos últimos tempos ela foi muito maltratada. As pessoas passaram a se comunicar quase que por onomatopéias. O pensamento ficou quase tão vago quanto sua expressão. Mas é preciso lembrar que são as palavras que dão as nuances, os matizes que diferenciam as idéias." Nathalia diz preferir os lugares calmos onde possa conversar. Ama música erudita: "Os de sempre, Mozart, Beethoven, Brahms." E assevera: "Prezo muito estar só." São 20h30. A sessão começa às 21 horas. Hora de ir embora. Ela ainda fala sobre a tarefa da humildade, do eterno aprender, diz não ter religião, preferindo dizer que é universalista, uma seguidora de princípios universais. Ao terminar a entrevista, a dama sorri e diz um "até breve". Logo lembra-se de um poeta de que tanto gosta. A palavra teima em sair mais uma vez, a porta do camarim já aberta, e ela inunda a sexta-feira chuvosa de um gosto raro de beleza, no verso de Fernando Pessoa: "Aconteceu-me do alto do infinito esta vida."

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