Natalia Ginzburg e a saga de família

Natalia Ginzburg e a saga de família

Tema é explorado por meio de uma linguagem direta, que ganha substância à medida em que delinea os personagens

Ivo Barroso, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2010 | 00h00

E is um livro que todos nós, autores e leitores, gostaríamos de escrever um dia: a história de nossa família, com suas peculiaridades, seus casos, seus personagens esdrúxulos, seu fraseado peculiar - enfim, a saga das reminiscências de um tempo não de todo perdido, pois preservado em parte na lembrança. Claro que a história de qualquer família daria um romance, desde que seu autor tivesse as qualidades literárias imprescindíveis para a transposição da memória para o papel. Porém, quando quem o faz é uma escritora da qualidade meridional de uma Natalia Ginzburg, tais evocações transcendem logo as fronteiras de um caso pessoal para exprimir todo um universo em sintonia com o do leitor, que se reconhecerá em seus fragmentos ou minúcias. Nas mãos dessa estilista do cotidiano, meros enfoques factuais se transformam em revérberos de sintonias que fazem o leitor sentir-se participante colateral da narrativa.

Natalia Ginzburg não é desconhecida do público brasileiro: Léxico Familiar já teve uma edição anterior, da Paz e Terra (tr. Homero Freitas de Andrade) em 1988; alguns outros livros seus também já foram traduzidos em português; mas deve-se principalmente ao romance Foi Assim (Berlendis & Vertecchia, tr. Édson Roberto Bogas Garcia), publicado aqui em 2001, o ter-lhe assegurado definitivamente a atenção de um círculo de leitores sensíveis ao seu estilo despojado, bem diverso do jargão de alguns escritores nossos que ainda teimam em confundir simplicidade com palavreado grosseiro. Considerada a mais legítima representante feminina do neorrealismo italiano de pós-guerra, Natalia Ginzburg utiliza uma linguagem direta, em que predominam os diálogos expressos em frases naturais, despidas de quaisquer artificialismos literários, mas que vão se aprofundando e ganhando substância à medida que delineiam seus personagens. Tal despojamento, no entanto, é apenas um dos aspectos de seu estilo personalíssimo, em que, sob a aparente narrativa de fatos corriqueiros, se introduz a obstinada defesa de seus valores pessoais e sociais, "sua integridade, sua paixão pela verdade e sua dedicação ao conceito de família". Natália formou, com Elio Vittorini, Cesare Pavesi e Italo Calvino, o naipe dos principais ideólogos e executantes do movimento neorrealista italiano, inspirado nos escritores de línguas inglesa e francesa, que eles próprios traduziam e introduziam nos círculos literários que orbitavam em torno da revista Solaria e da editora Einaudi, na qual ocupou as funções de leitora e orientadora editorial.

Este Léxico Familiar conta em parte a sua história: nascida numa família judia - o pai, Giuseppe Levi, famoso biólogo e histiologista; a mãe, Lídia Tanzi, não-judia, de formação socialista - Natália casou-se com o editor e ativista político Leon Ginzburg, judeu russo nascido em Odessa, líder de um movimento clandestino antifascista (Giustizia e Libertà), do qual participaram todos os membros da família Levi-Tanzi-Ginzburg. Com o advento dos fascistas ao poder, Leon, Natália e os filhos foram confinados numa cidadezinha dos Abruzos. Após três anos de confinamento, Leon regressou a Turim e Roma, onde continuou a participar do movimento de resistência. Preso em 1943, foi transferido para uma prisão alemã, onde morreu sob torturas em fevereiro de 1944. "Numa linguagem discreta, simples e sem sobressaltos (...) a prisão e morte de Leon são contadas[NO LIVRO], sem ênfase: "Foi detido vinte dias depois de nossa chegada e não tornei a vê-lo nunca mais."" (posfácio de Ettore Finazzi-Agrò, p. 225).

Natalia, a primeira tradutora da obra de Proust em italiano, editora poderosa, não abandonou suas convicções políticas: ligando-se ao Partido Comunista Italiano, foi eleita deputada em 1963 e 1987, quando abraçou causas humanitárias (defesa das crianças palestinas, assistência legal para as vítimas de estupro, reforma das leis de adoção, etc.). Mais tarde, desencantada com a política, resignou como membro do Partido. Louve-se a excelente edição da Cosac Naify, a correção e fluência da tradução de Homero Freitas de Andrade, e suas notas de apoio com fotos e sugestões de leitura.

LÉXICO FAMILIAR

Autor: Natalia Ginzburg

Tradução: Homero

Freitas de Andrade

Editora: Cosac Naify

(240 págs., R$ 59)

IVO BARROSO É POETA, ENSAÍSTA E TRADUTOR

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