Pixabay
Pixabay
Imagem Leandro Karnal
Colunista
Leandro Karnal
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Natal, enfim

Em 2011, a ONU declarou ‘Noite Feliz’ patrimônio imaterial da humanidade

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2021 | 03h00

Crianças anseiam pelo Natal; adultos sabem que Papai Noel incrementa boletos. Seria um marcador de idade: como você reage ao cheiro de panetone que entra no ar a partir de outubro e se torna onipresente nos dias que antecedem a festa? 

Sou suspeito. Sempre amei o Natal. No Fla-Flu gastronômico que o tema suscita, sou o que ama passas no arroz. Adoro comidas natalinas e músicas de Natal, inclusive a boa voz da Simone entoando: Então É Natal! 

Uma amiga confessou-me que achava Noite Feliz depressiva. Acho a história da criação austríaca linda e já a contei em diversos grupos. A cidade de Oberndorf fica perto de Salzburgo. O padre Joseph Mohr precisava de uma música para versos que ele havia feito. Em uma das versões da narrativa, o órgão estava danificado e a música deveria ser cantada sem acompanhamento, ou seja, a capela. Talvez o padre tenha usado seu violão. Quem compôs a música rapidamente para a Missa de Natal de 1818 foi o amigo do religioso: Franz Xaver Gruber. A noite fria e calma na fronteira austro-bávara fez surgir, em alemão, o verso famoso “Stille Nacht, heilige Nacht”. A noite é silenciosa e sagrada, fria como a descrição do primeiro Natal no Evangelho de Lucas. Os versos iniciais descrevem essa solene calma, ampla e poética, e convidam a nós, ouvintes, a contemplar, em sono intensamente coroado de paz, o bebê no colo da Virgem Maria. Funciona como um acalanto, uma canção de ninar para Jesus. Em inglês, o sentido ficou apegado ao alemão: “Silent Night! Holy Night”. Em francês, a data fica doce e santa: “Douce nuit, sainte nuit”. Nossos vizinhos hispânicos entoam “noche de paz, noche de amor”. No Brasil, a versão mais conhecida foi traduzida pelo franciscano Pedro Sinzig (morreu em 1952) e trouxe a novidade: nada de neve, paz, silêncio; a noite é feliz! Existe uma pequena distância entre a melodia lenta e quase elegíaca com a ideia de uma noite marcada pela felicidade. A música original era para o silêncio sacrossanto do inverno; a brasileira anuncia uma felicidade que combina pouco com as notas e o andamento da partitura.

A pequena igreja onde a música foi ouvida pela primeira vez não existe mais. As cheias devastadoras do rio Salzach obrigaram a reconstruir o prédio mais acima. Para mim, que a visitei, funciona como a casa de Julieta em Verona: uma história bem contada naquele lugar. Claro, o padroeiro da igrejinha é são Nicolau, o Papai Noel. Em 2011, a ONU declarou Noite Feliz patrimônio imaterial da humanidade. Gostou? Vai cantar mais cheio de entusiasmo? Independentemente da trilha sonora, tente uma noite bem feliz. Você está vivo e isso virou privilégio. Natal é esperança em uma noite muito feliz. 

Tudo o que sabemos sobre:
músicaNatal [25 de dezembro]

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.