Nat King Cole, por Omara

Projeto sigiloso fará encontro da dama cubana com a grande voz da canção dos EUA

JULIO MARIA, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2013 | 11h02

Antes mesmo de esbarrar em Omara Portuondo pela primeira vez, Nat King Cole sabia bem do que era capaz a flor de Havana. Sabia e respeitava. Pois Fidel Castro nem havia ainda escalado sua Sierra Maestra para arquitetar a tomada da Ilha das mãos do ditador Fulgencio Batista quando Omara começou a se tornar um nome de respeito e a fazer a própria revolução. Cantava em um grupo chamado Cuarteto d'Aida, com o qual já havia lançado um álbum de sucesso dez anos antes de Che Guevara dar o ar da graça, com uma técnica e uma emoção que pareciam estar sempre sobrando em sua voz. Mais ou menos ao mesmo tempo, Omara e Nat conquistavam seus mundos. Do lado de cá do oceano, ela despontava em espanhol, nos cassinos da era pré-revolução. Do lado de lá, ele já era um fenômeno, lançando discos como pianista de um trio de jazz que chegou a gravar os desconhecidos alicerces do rock and roll em 1945, chamado Straighten Up And Fly Right.

As afinidades foram crescendo até que Nat e Omara se juntaram para uma série de shows em Havana, na casa Tropicana, ainda hoje uma das mais conhecidas da Ilha. O episódio que entrou para a biografia do cantor, e que deixou Omara sem cor, foi o dia em que o suntuoso Hotel Nacional, de frente para o Malecón, não aceitou Nat como hóspede pelo fato de ser ele negro. "Mas isso foi antes da revolução, uma época em que muitos sofriam com o racismo no mundo todo", diz Omara ao Estado, de um hotel em Barcelona, Espanha, onde estava para uma apresentação com os remanescentes do grupo Buena Vista Social Club.

Omara acaba de celebrar um reencontro póstumo com Nat King Cole. Dirigida pelo violonista brasileiro Swami Jr., a cantora já gravou todas as faixas de um disco em que só canta músicas da fase hispânica de Nat, extraída de álbuns que o cantor lançou nos anos 1950, com canções de origens mexicanas, cubanas e brasileiras.

Ainda sem nome e data de lançamento definidos, o projeto é guardado em caráter confidencial pelos agentes de Omara, que não liberaram nem trechos de canções para serem disponibilizados no portal do Estadão. Mas Swami, diretor, violonista e arranjador de Omara, conseguiu permissão para mostrar todas as faixas à reportagem. As gravações mostram uma Omara de voz grande e comovente, aos 82 anos, tocada ao rever músicas que estiveram consigo desde que tudo começou. "Ele já era uma autoridade quando começamos com o grupo em Cuba", lembra Omara.

Swami coloca faixa por faixa, como se escutasse o trabalho pela primeira vez. Acerca-te Más, bolerão em sua versão original, já mostra a mão do brasileiro nas harmonias. El Bodeguero, em que Omara divide vozes com Natalie Cole, filha de Nat, deixa claro que Swami universaliza Omara, retirando-a do conforto e das amarras da música caribenha ao arranjá-la com texturas e acordes que não sairiam da tradição cubana. Noche de Ronda é feita com mais sofisticação do que a versão de Nat. Com delicado solo de Flugelhorn, Solamente Una Vez vira um danzón, gênero mais lento apreciado pela velha guarda dançante, e Piel Canela, um chachachá cheio de convenções que os músicos brasileiros gostam de usar. Entraram ainda Maria Helena, com uma levada que fica entre o samba-canção e o bolero, Quizás, Quizás, Quizás, totalmente renovada em sua rearmonização muito mais encrencada do que a versão original, e Tu Mi Delírio, a mais brasileira das faixas, com marcação rítmica de tamborim. Em inglês, Omara canta Autumn Leaves, em arranjo para violão, cajón e baixo, uma rumba flamenca que fez questão de incluir.

O disco foi registrado no estúdio Abdala, em Havana, que tem como proprietário o cantor Silvio Rodrigues, com moderníssimos recursos. "É hoje o melhor estúdio de Havana", conta Swami, quando questionado sobre a opção por não gravar no Egrem, a histórica sala da música cubana. Ele conta que Omara não repetiu nenhuma canção. "Com ela não tem isso. Fez, passou, está pronto. Omara é um tipo de cantora que não temos mais. Sua vivência, seu passado, faz com que ela seja a própria música. Não é algo processado no cérebro para sair como sai. O que sai é a própria Omara", define.

Em um tom que não parece cordialidade de compadres, Omara também passa a se referir a Swami quando sente que a entrevista se aproxima do fim. "Ele tem um violão e uma orquestração muito especiais. É um grande músico que me deu a oportunidade de conhecer e gravar com muitos brasileiros, como Maria Bethânia e Chico Buarque." Seja com o projeto Orquestra Buena Vista, com o qual roda pela Europa, seja para lançar o álbum com a obra de Nat King Cole, Omara diz que só espera o chamado de um empresário para voltar ao Brasil. "Vou na hora. É só me convidarem."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.