Nascimento de Indy

Como Steven Spielberg e George Lucas criaram o mítico Indiana Jones

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

31 de março de 2013 | 02h11

A criação de uma obra de arte tem início no fluxo desinibido de consciência, em que o artista dá vazão a uma enxurrada de ideias sem lapidá-las pelo senso crítico. A língua inglesa define a etapa de maneira precisa, como "brainstorm", ou temporal cerebral. E, vez ou outra, por meio de uma entrevista, uma carta ou de outros registros pessoais, é possível vislumbrar com profundidade o pé d'água criativo dos grandes mestres. É o caso de uma transcrição do brainstorm que Steven Spielberg, George Lucas e o roteirista Lawrence Kasdan tiveram em 1978, para arquitetar o roteiro sobre um certo arqueólogo, meio caubói, meio James Bond, que se aventurava em busca de relíquias preciosas.

Trata-se de uma prática comum em Hollywood, chamada de "spitballing", em jargão da indústria. E, para os alicerces de Os Caçadores da Arca Perdida, o primeiro filme da série Indiana Jones, o trio teve um extenso tête-à-tête de quatro dias, em 1978, cuja transcrição está disponível em blogs de longas como o Maddogmovies (procure num site de buscas pelo nome do blog e o título original, Raiders of the Lost Ark, para encontrá-lo).

Uma mina de ouro para fãs e curiosos, a conversa revela o extenso leque de referências que inspiraram os diretores, junto à elaboração de diversas cenas do filme. A conversa é iniciada por Lucas, que lidera o brainstorm: "O conceito é o de uma série dos anos 30. Queremos ter um grande momento de expectativa após o outro. Se tivermos um a cada 10 minutos, então serão 12", afirma, referindo-se a seriados como Flash Gordon, mostrados antigamente, em capítulos de 30 minutos feitos para deixar o público ansioso pelo próximo episódio.

Em seguida, Spielberg e Lucas tateiam o personagem. "Será um James Bond dos anos 30. Mas a fantasia será mais real, como um western de Clint Eastwood", diz Lucas. A busca é por um herói menos óbvio, que não seja um homem perfeito, como Sean Connery. "Toshiro Mifune, nos filmes do Kurosawa", sugere Spielberg, lembrando o cômico herói de Os Sete Samurais. Lucas rebate com Eli Wallach, em o Bom, o Mau e o Feio, um personagem meio "trapalhão", mas muito bom no que faz.

Humphrey Bogart, em o Tesouro de Sierra Madre, é mencionado e dá margem a uma elucubração sobre o figurino. "A ideia mais forte do personagem é como Bogart em Sierra Madre. Calças cáqui, chapéu de feltro, uma pistola em um coldre da Primeira Guerra." O chicote, que será a "marca registrada", do personagem é contemplado: "É a sua arma preferida. Ele tem um revólver, mas é bom mesmo com o chicote".

Spielberg rebate, descrevendo uma cena do filme: "Em algum momento, ele tem de usá-lo para enlaçar a donzela. Ela quer ir embora, mas ele a traz de volta para seus braços, rodopiando, com o chicote".

Em determinada altura da conversa, as cenas começam a ser delineadas. George Lucas sugere que o filme comece com um grande momento de espanto, e Spielberg completa a tabela com um golaço: "Eu tenho uma ótima ideia! Nosso herói escuta um barulho, está escuro, e de repente uma rocha de 65 pés, feita para rolar por um corredor, vem em direção a ele. É uma corrida. Um dos vilões é esmagado".

Nas 150 páginas da transcrição, fica claro, também, a quantidade de pesquisa feita por Lucas. O produtor diz ter pensado em uma arca, baseada na história de Hitler, que era obcecado por artefatos que lhe trariam poder, como a ponta da lança que matou Cristo. A ideia é sincronizada com a trama, originando a corrida em busca da arca, entre Indiana Jones e o arqueólogo francês René Belloq, e também definindo os nazistas como os vilões do filme.

Um enredo romântico paralelo é confabulado, assim como ideias que não serviram (Indiana Jones lutando kung fu), ou foram adaptadas para os outros filmes da série. É o caso de um lampejo de Spielberg, que vislumbra uma cena em um avião sem pilotos e paraquedas, e outra, de perseguição, em carrinhos de uma mina de carvão. A cereja do bolo, no entanto, fica por conta do momento de batismo. "Como chamá-lo?", pergunta Spielberg: "Indiana Smith - ou Jones. Queremos uma coisa bem americana". "E a donzela o chama do quê", questiona Lawrence Kasdan. "Indy?"

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