Nascidos em 1972

Projeto Radiola Urbana 1972 convida artistas como Rodrigo Campos e Rômulo Fróes para refazer no palco LPs memoráveis criados há 40 anos

LAURO LISBOA GARCIA , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2012 | 03h10

Parece uma daquelas misteriosas conspirações a favor que fizeram de 1972 um ano de grandes transformações na música brasileira. E também universal. Se praticamente todos os conceitos e movimentos foram deflagrados na década mais importante para a modernização da música mundial, a de 1960, os manifestos fundamentais - da Tropicália, do movimento hippie, da música de protesto em meio à ditadura na era dos festivais, a criação do que se convencionou chamar de MPB - surtem efeitos extraordinários na produção dos anos 70.

Um dos episódios mais marcantes de 1972 foi a volta do exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Caetano teve quatro álbuns dos mais importantes lançados naquele ano: Transa, Araçá Azul, Caetano e Chico Juntos e ao Vivo e Barra 69, gravado com Gil pouco antes de partirem para Londres. Gil, por sua vez, veio com Expresso 2222, influenciado pela música pop inglesa, mas muito mais voltado às referências nordestinas. Uma de suas declarações na época diz muito sobre esse momento singular: "Vi tudo, vivi tudo, o sonho acabou, os anos 60 passaram, a música levou tudo às últimas consequências. Bem, então, agora, vou ver o que sobrou, o que é que eu sou, o que é que eu posso".

Ele não estava só. A alquimia rítmica de Jorge Ben (Ben), o samba-soul de Tim Maia (o terceiro álbum homônimo) e o rock-samba dos Novos Baianos (Acabou Chorare). A invenção do rock rural de Sá, Rodrix & Guarabyra (Passado, Presente e Futuro), o início da fértil parceria de Elis Regina com César Camargo Mariano (Elis) e a densidade de Maria Bethânia (Drama). O refinamento do samba de Paulinho da Viola vinculado a suas influências (Dança da Solidão), a imersão mais profunda de Erasmo Carlos (Sonhos e Memórias/1941-1972) e a afirmação solo de Rita Lee, ainda com os Mutantes (Hoje É o Primeiro Dia do Resto de Sua Vida), experimentando e se deslumbrando com as novidades do recém-inaugurado Estúdio Eldorado, no mesmo ano em que lançou o derradeiro álbum com o grupo (Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets).

As fusões inclassificáveis de Milton Nascimento, Lô Borges, Wagner Tiso, Beto Guedes, Toninho Horta e sua turma na Tropicália dos mineiros (Clube da Esquina), o jorro da criatividade até então represada de Arthur Verocai (no álbum homônimo). As novas investidas de Marcos Valle em ritmos, harmonias e tudo o mais com O Terço e no esquema de produção de um disco experimental (Vento Sul). O ápice do romantismo de Roberto Carlos (a partir de Detalhes, do álbum lançado em dezembro de 1971), a revelação de Raul Seixas e Fagner (no Festival Internacional da Canção, com Let Me Sing, Let Me Sing e Quatro Graus, respectivamente). Tudo isso e mais alguma coisa se deflagrou ao mesmo tempo.

Essa é apenas a ponta mais visível do enriquecedor mapa sonoro de 1972, que influencia jovens músicos, compositores, arranjadores e intérpretes até hoje. Não é por acaso que Marcelo Jeneci foi procurar Verocai, um dos arranjadores de um disco de Erasmo do período (Carlos, Erasmo, 1971), para trabalhar em seu promissor álbum de estreia, Feito pra Acabar (2010). Parte desse panorama vai ser reconstituído no projeto Radiola Urbana 1972, pilotado pelo jornalista e pesquisador Ramiro Zwetsch, com novos expoentes reconstruindo discos fundamentais daquele ano.

O projeto "pretende refletir sobre a diversidade criativa de 20 discos lançados 40 anos atrás", brasileiros e internacionais, por meio de cinco shows no Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso e nove programas de web rádio (http://blog.revistaurbana.com.br). O primeiro show terá Bruno Morais interpretando Sonhos e Memórias dia 13 de maio. Em junho, Romulo Fróes recria Transa. Nos meses seguintes, até outubro, virão Rockers Control e Curumin com a trilha sonora do filme The Harder They Come (Jimmy Cliff e outros), um marco do reggae jamaicano, Assembleia Rítmica de Pinheiros interpretando Mulatu of Ethiopia (Mulatu Astatke Sexteto), pedra fundamental do ethio-jazz, e Rodrigo Campos recriando Superfly (Curtis Mayfield), clássico da soul music.

Os podcasts começam em abril com programas sobre Clube da Esquina e Acabou Chorare e prosseguem com os ecos do soul na MPB (Jorge, Tim e Erasmo), os trabalhos pós-tropicalistas de Caetano, Gil e Macalé, o rock (programa sobre os discos Exile on Main Street, dos Stones, e Harvest, de Neil Young, o ethio-jazz de Mulatu e o afrobeat de Fela Kuti, e o soul de Mayfield, Stevie Wonder (que lançou Talking Book e Music of My Mind no mesmo ano), Bill Withers e Al Green.

"A princípio iria fazer esse projeto só com música brasileira, a partir do Transa, que acho um disco fundamental, mas aí percebi essa coincidência de ser um ano importante para vários gêneros que têm a ver com a diversidade do site Radiola Urbana", acrescenta Zwetsch.

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