Nascido para o design

Três livros mostram o estilo de um gênio das artes gráficas, o americano Paul Rand, morto em 1996

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2010 | 00h00

Simplicidade e elegância. Ilustração de Rand para o livro infantil 'Eu sei um montão de coisas', que foi escrito por sua mulher, Ann.

 

 

É preciso ser um profissional e tanto para receber de Moholy-Nagy (1895-1946), o fotógrafo e designer da Bauhaus, um elogio como este: "Entre os jovens americanos, parece que Paul Rand é o melhor e o mais capaz". O húngaro definiu ainda melhor que ninguém o designer - "um idealista e um realista ao mesmo tempo". Rand (1914-1996) está sendo homenageado pela Cosac Naify com o lançamento simultâneo de dois livros, um de entrevistas sobre seu métier (Conversas com Paul Rand) e outro infantil, escrito por sua mulher e ilustrado por ele (Eu Sei Um Montão de Coisas). Na esteira, a editora recoloca no mercado o livro Pequeno 1 (lançado em 2007), também assinado com a mulher e dedicado a crianças.

Formado nos departamentos de criação de editoras e agências de publicidade, Paul Rand revolucionou o design americano quando tinha apenas 24 anos, saudado na época como o mais promissor profissional do ramo. Rand não decepcionou: são deles dois dos logos corporativos mais facilmente reconhecíveis em todo o mundo, o da IBM (1956) e o da rede ABC de televisão (1961). Com eles, o designer transmitiu aos alunos a lição que aprendeu dos mestres da Bauhaus: simplicidade e elegância.

A inteligência visual de Rand era tamanha que antecipou com a criação da identidade dessas empresas a estética minimalista que os artistas só saberiam aproveitar nos anos 1960. No livro Conversas com Paul Rand, ele diz que design "é manipulação da forma e do conteúdo", lembrando que, como Picasso, ele agia por "eliminação", escolhendo sempre algum elemento para jogar fora. Para isso, obviamente, partia do complexo para o simples. Em síntese: não era só intuitivo. Educou-se lendo livros de grandes teóricos de arte como John Dewey (cujo livro Arte Como Experiência acaba de ser lançado pela Martins) e Roger Fry.

 

 "Ninguém é um gênio criativo só porque tem um computador", disse Rand.

Como bom designer, Rand não fazia nada sem pensar em Paul Cézanne e Jan Tschihold, o designer suíço que definiu as bases teóricas da moderna tipografia. E justificava assim essa adesão à ordem compositiva assimétrica de Tschihold: queria fazer o que Cézanne fez com a maçã e Duchamp com o urinol: "desfamiliarizar o ordinário". Em outras palavras: tornar estranho aquilo que é familiar aos olhos de todos, estratégia que os formalistas russos usaram com bom senso e propriedade.

Conversas com Paul Rand é uma boa introdução ao pensamento gráfico de Paul Rand. Ele reúne excertos de palestras na Universidade do Arizona. Autor de títulos fundamentais como Design, Form and Chaos (1993) , o designer contesta a teoria de que o bom design tem que mudar constantemente. A novidade, dizia, não quer dizer nada. "Se fosse o novo pelo novo, teríamos de derrubar todos os belos edifícios europeus", disse, concluindo: "Ninguém é um gênio criativo só porque tem um computador". É uma lição para não ser esquecida.

 

 

       

LIVROS 

 

CONVERSAS COM PAUL RAND   Organização: Michael Kroeger. Tradução: Cristina Fino. Editora: Cosac Naify (128 páginas). Preço: R$ 38

EU SEI UM MONTÃO DE COISAS   Autoria: Ann Rand e Paul Rand. Tradução: Alípio Correia. Editora: Cosac Naify (40 páginas). Preço: R$ 42

PEQUENO 1   Autoria: Ann rand e Paul Rand. Tradução: Alípio Correia de França Neto. Editora: Cosac Naify (36 páginas). Preço: R$ 35

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