Nas telas, 'Linha de Passe', de Walter Salles e Daniela Thomas

Filme que consagra Sandra Corveloni como a melhor atriz no Festival de Cannes estréia na sexta nos cinemas

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

02 de setembro de 2008 | 19h14

É a pergunta que você, cinéfilo, com certeza já se deve ter feito - por que Walter Salles, um dos importantes diretores brasileiros (e com uma estável carreira internacional), volta e meia sente essa necessidade de compartilhar a realização com Daniela Thomas? E outra - como e por que o filho do banqueiro (seu pai, Walter Salles, foi um dos homens mais ricos do Brasil) fez essa opção por contar histórias de excluídos, marginalizados, ou utopistas como o jovem Che Guevara? Essas e outras perguntas foram levadas a Waltinho, como é chamado, e a Daniela Thomas, que na semana passada participaram, em São Paulo, de rodadas de entrevistas promovendo Linha de Passe, novo filme da dupla, premiado em Cannes - melhor atriz para Sandra Corveloni - e que estréia na sexta, dia 5.  Veja também:Trailer de 'Linha de Passe'    E, então, por que compartilhar a direção? Não adianta dizer que Daniela é sua alma gêmea porque essa união fraterna vale para alguns filmes, não para todos. Walter Salles - Fazer filmes não é uma atividade solitária. Muita gente se envolve e participa do processo, mas, apesar disso, e de estar sempre trocando informações com artistas e técnicos, dirigir tem um lado solitário, sim. Daniela e eu combinamos que temos carreiras-solo, mas a cada década, ou menos, vamos fazer um filme juntos. É uma parceria que vem dando certo e, ao mesmo tempo, satisfaz a minha necessidade do outro, para me completar. Co-dirigir com ela me estimula e também me completa. Estamos no nosso quarto trabalho (NR - os longas Terra Estrangeira e O Primeiro Dia, o episódio de Paris Eu Te Amo; mas Daniela corrige e diz que é o quinto, acrescentando o curta Amor e Armas, sobre Adão Xalebaradã) e ela me completa. No set, basta às vezes uma troca de olhares para estarmos em sintonia. Mas você ainda não respondeu à pergunta. Por que essa necessidade vale para certos filmes, somente. E como é - você pega o telefone e diz, ‘Daniela, vamos fazer um filme?’ Daniela Thomas - É assim mesmo. Ele ligou e me disse que queria fazer um filme. Walter tinha idéias sobre uma família desprovida da figura paterna, uma figura em que a mãe cumpre as duas funções e é também o pai. Ela teria esses filhos, e um deles seguiria o sonho de milhões de brasileiros, que elegem o futebol como veículo para sair da exclusão social. Quando o Walter propôs a idéia fundadora, ela já veio com uma forma. Os irmãos precisavam se apoiar, a casa teria de funcionar como um centro de suporte para todos e a bola não poderia cair. Veio daí o título - em futebol, a linha de passe é a jogada em que os atletas dominam a bola entre si, sem perder o controle dela. Mas isso foi só o começo. Foi um filme que demorou muito para ser feito, na verdade, para ser escrito. Trabalhamos cinco anos no roteiro, George Moura e eu. Bráulio Mantovani (de Cidade de Deus) ajudou a redirecionar o projeto, quando entrou em crise (NR - Quando o co-roteirista de Central do Brasil, João Emanuel Carneiro, utilizou elementos do filme, como o motoboy com sensibilidade artística, para a novela que escreveu na Globo, Cobras e Lagartos). Outra pergunta que muita gente se faz é por que você, Walter, rico, bonito e bem-sucedido, um aristocrata, fez essa opção pela periferia e pelos excluídos, que está em praticamente todos os seus filmes? WS - Mas eu não sou um aristocrata. Aristocrata era o Luchino Visconti, que fez filmes como Rocco e Seus Irmãos, que foi uma referência importante para todos nós. Meu pai foi um homem bem-sucedido, mas foi o primeiro na família dele a ter um diploma. Minha mãe, descobri enquanto fazia o filme, foi secretária na Central do Brasil. Se um realizador fosse obrigado apenas a olhar para sua classe social, Visconti não teria feito Rocco nem A Terra Treme ou Obsessão. Pierre Verger também não teria abandonado uma vida confortável em Paris para fotografar na África ou na Bahia. Na classe social de onde eu venho, é fácil blindar um carro, colocar o vidro escuro e fingir que os problemas não existem. Só que eles existem e não tenho vontade de chamar o Bope para resolvê-los. Acho que a gente só se completa no outro (já disse), naquele que é diferente de você. Não é uma constatação romântica, e sim uma necessidade. Linha de Passe trata de um tema freqüente na filmografia de vocês - a falta do pai. WS - Já vem desde Terra Estrangeira, que também era marcado pela ausência do pai e, inclusive, o personagem derivava para Portugal, fazendo o caminho inverso do colonizador, indo em busca do pai que nos abandonou. Mas não quero psicanalisar. A ausência do pai é um dado estatístico brasileiro. Cerca de 20 ou 25 por cento das famílias possuem essa lacuna e, nelas, a mulher desempenha a função de mãe e pai, exatamente como faz a Cleuza (Sandra Corveloni) no filme. O roteiro, inclusive, perpetua essa tendência, porque o Dênis, um dos filhos (o motoboy), é pai de um menino que não o reconhece e até chora quando o vê. É um problema crônico que atravessa gerações e se constitui numa vertente importante para entender o País. É um filme que foi muito escrito e, ao mesmo tempo, tem uma pegada documentária muito forte. DT - Isso também fazia parte do conceito do filme. Walter queria que Linha de Passe tivesse um pé no documentário. WS - Num certo sentido, é o oposto de Central do Brasil. Central era um filme no qual a precisão era necessária. Em Linha de Passe, queria, e a Daniela foi muito solidária desde o roteiro, que São Paulo e a realidade da família, dos garotos, invadisse o longa. O roteiro já previa isso - uma porosidade que teria de ser invadida e preenchida durante a filmagem. Qual será a estratégia de lançamento do filme? WS - Desde o início pensamos em Linha de Passe como um filme pequeno, em que fosse possível arriscar. A boa reação e o prêmio em Cannes ampliam um pouco as possibilidades, mas o DNA do filme permanece o mesmo. Linha vai ser lançado com 50 cópias, o que pode ser considerado um lançamento médio. Os filmes que Daniela e eu co-dirigimos fizeram uma média de 100 mil espectadores. Imagino que o Linha possa ir um pouco além dos números de Terra Estrangeira, mas não devemos esperar muito mais.   O menino Kaíque, agora com 14 anos, rouba a cena Sandra Corveloni, que faz a mãe em Linha de Passe, foi melhor atriz no Festival de Cannes, em maio. No filme, ela tem quatro filhos e está grávida do quinto. A família é multirracial, como a de Era Uma Vez, de Breno Silveira, outro filme brasileiro já em cartaz nos cinemas e no qual a mãe também encara sozinha o desafio de criar os filhos. Todos os garotos de Linha de Passe são ótimos (leia a entrevista na página seguinte), mas um deles rouba a cena. Em busca do pai, que supõe ser um motorista, Reginaldo, o caçula, rouba um ônibus e sai pela cidade de São Paulo. Kaíque Jesus Santos tinha 12 anos quando fez o filme. Aos 14, ele poderá muito bem ser a surpresa e a revelação de Linha de Passe. "Eu freqüentava uma ONG do Capão Redondo quando me falaram dos testes para o filme. Fomos dois garotos tentar a sorte e eu fui selecionado", ele conta. O trabalho de preparação do elenco foi feito por Fátima Toledo, a figura já mítica que tem estado por trás das câmeras, preparando atores para algumas das obras mais significativas do cinema brasileiro atual. Fátima havia feito isso para Hector Babenco em Pixote e voltou a fazer para Fernando Meirelles em Cidade de Deus. Depois disso, não parou mais."A preparação foi para que a gente vivesse e se considerasse como uma família mesmo. Inclusive, fomos viver na casa das filmagens, antes que elas começassem." A cena-chave, quando Kaíque dirige o ônibus, exigiu muita preparação. "Eu andava muito de ônibus pela cidade e ficava olhando os motoristas. Na hora, eu sabia como fazer, mas, como nas auto-escolas, havia um instrutor logo atrás de mim que poderia parar o ônibus, se fosse necessário." Walter Salles e Daniela Thomas basearam-se numa história real para construir a ficção do garoto que rouba o ônibus. Em Cannes, a cena foi aplaudida em cena aberta. Kaíque é tão talentoso quanto Darlan Cunha e Douglas Silva, que estouraram em Cidade de Deus e depois fizeram Cidade dos Homens na TV.

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