Editora Record/Divulgação
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Nas produndezas da alma humana

Áspera e poética, escritora reflete sobre os problemas da sociedade atual

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

25 Abril 2011 | 00h00

Incomodada com qualquer injustiça, Lya Luft não se resigna a se lamentar - deixa o raciocínio fervilhar e escreve. E, ao sabor de sua forma predileta de se dirigir ao leitor (direta e coloquial), coleciona ensaios que não apenas revelam suas perplexidades, como também focam o drama existencial humano. É, portanto, sobre guerras, miséria e política, entre outros assuntos, que trata A Riqueza do Mundo, seu mais recente livro, lançado agora pela editora Record.

Na obra, Lya trata de perdas e ganhos (título, aliás, de um de seus maiores sucessos) - dos delírios da arte e das aventuras da ciência como também da educação que empobrece a mente e da pobreza provocada pelo desinteresse. O pessimismo, no entanto, é apenas aparente, embora regado a muito ceticismo: Lya é uma mulher conectada em seu tempo. Sobre o assunto, ela respondeu, por e-mail, as seguintes perguntas.

O título do livro vem de uma crônica desalentada, pois aponta diversos problemas do mundo. Uma ironia?

Não pensei em ironia ao colocar o título, pode até ser. Tudo é ambíguo, tudo tem várias interpretações - isso torna a vida mais interessante, não é? Mas eu quis abranger nesse titulo a riqueza material, os bilhões e trilhões que circulam no mundo e tanta gente morre de fome, de frio, de sujeira e desamparo, de falta de educação e instrução; incluo também a riqueza dos afetos; a questão, para mim eterna, da família; dos novos casamentos; de como se enxerga a velhice; de como nos vemos, nos tratamos, nos pensamos; etc., etc., etc.

A amargura e o tédio são os grandes males contemporâneos? Por que vivemos tão cheios de desgosto?

Não sei qual seria o grande mal contemporâneo, mas possivelmente o desassossego, o excesso de possibilidades e a dificuldade de discernir e escolher, a violência, e a fragilidade de alguns laços de afeto. O tédio nasce do excesso de ofertas e da falta de exigências e estímulos. Ninguém mais é reprovado na escola, os pais não dizem "não" pois estão cheios de teorias tolas, o sexo é oferecido com uma banalidade horrorosa. Mercado de trabalho complicado, a meninada mora com os pais até 30 anos... Enfim, muitas coisas nos afligem. Mas também existem o belo e o bom: temos paciência e tempo, e gosto para curtir isso, ou somos, como escrevi recentemente, trogloditas com o dedo no Touch Pad, que nem se dão conta do espreitar da morte?

A literatura está dando conta da realidade atual, complexa e acelerada?

Não sei se literatura tem de dar conta da realidade. Essa que eu faço, ficção, crônica, pequenos ensaios, pode se contentar com a fantasia; com pequenos fatos ou preocupações; com o cotidiano miúdo ou os grandes medos. A realidade, será que ela existe, ou existe o que cada um de nós enxerga?

Essa relação íntima entre a literatura e a realidade mais imediata não pode significar que a literatura, de alguma forma, jamais se livra do poder?

Nunca me liguei a nenhum poder. Vivo quase enclausurada em meu apartamento em Porto Alegre. Não dependo de política nem de poder nenhum, só quero que meu livro saia direito, correto, e atinja um público razoável. Claro que existe arte ligada ao poder. Até agora consegui, conscientemente ao menos, me esquivar disso.

Você acredita que há um aspecto litúrgico na prosa?

Toda arte tem aspectos litúrgicos, sim. Ou vira banalidade pura, o que para mim não é arte. A boa prosa tem em suas entrelinhas um vento de poesia. Na arte existe, mesmo na naïf, algo de solene, que não cabe nas palavras, que tem um toque mágico. Há quem ache isso bobo. Eu levo muito a sério. Eu sou uma pessoa muito comum, que lida com algo nada comum, que rodeio e rondo com enorme respeito.

Incomoda o preço a pagar por uma estética que está, sempre, muito ligada à realidade mais imediata?

Não sei se você fala em estética física, corporal, ou estética na literatura. Deve ser essa última. Não pago preços, ou são tão minúsculos que não me dou conta. A realidade mais imediata eventualmente me interessa e falo nela (a corrupção na política, o mau uso do poder), mas há por trás de tudo algo mais amplo, que é a vida, que é a morte, que é esse tempinho em que estamos aqui e nem paramos para pensar.

O maravilhamento e a fantasia são fundamentais na criação de um leitor apaixonado?

Há grandes leitores que não gostam de ficção nem fantasia. Leem outras coisas. Mas no imaginário, no fantástico ou fantasioso, no mágico ou como queiram dizer, há uma riqueza incalculável, que nos torna mais humanos. Minha cachorrinha tem fome, tem sede, tem sono. Mas para ela o mágico, o imaginário, não existe. Quando dorme, e sonha, e choraminga, deve ser sonhando com um osso que lhe tiraram. Sem ilações ou discussões.

Não lhe parece impressionante o poder que a ficção tem de interferir na realidade e, até, de criar novas realidades?

Sim. Por isso é preciso tanto cuidado com ela, tanto respeito por ela, e pelo público, por exemplo, de novelas ou filmes, que muitas vezes exploram o pior da realidade, como se fosse o normal. Como se fora da violência, do sexo banalizado ou doentio, da agressividade, e da droga, todo o resto fosse efêmero, desimportante e infantil.

A literatura é uma opção de vida?

Para mim acabou sendo, mas só agora, no vestíbulo da velhice - ou no auge da maturidade como eu penso. Por quase toda a minha vida trabalhei como tradutora, todos os dias, muitas horas, para pagar a escola dos filhos, ou supermercado, as férias de verão, pois o pai das crianças não teria podido fazer isso sozinho, e eu gostava dessa atividade. Só com o crescimento das vendas de meus livros, há coisa de dez anos, pude realmente viver quase só de literatura, os artigos na Veja, eventuais palestras (recuso muito, demais, sou preguiçosa e preciso d e tranquilidade, meu bem estar me vale mais que algum dinheirinho sobrando). Mas se tiver de voltar ao trabalho maravilhoso e braçal de traduzir bons livros, eu volto sem problema. Viva e lúcida, produzir é muito bom.

A Riqueza do Mundo

Autora: Lya Luft

Editora: Record (272 páginas, R$ 34,90)

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