Nas planilhas da História

Alexandre era o Grande. Mas em planilhas, deveria aparecer como Alexandre o Pretensioso

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

17 Dezembro 2016 | 02h00

Se é verdade que a promiscuidade entre empreiteiras e Estado começou na Antiguidade, os apelidos para despistar o controle da Justiça passaram a ser dados, temendo delações premiadas, no primeiro dia em que aquedutos, termas, colunas e monumentos foram licitados.

Alexandre era o Grande. Mas em planilhas, deveria aparecer como Alexandre o Pretensioso.

No Império Romano, obras eram, como hoje, superfaturadas. Aquele capricho, gigantismo e labirinto de túneis subterrâneos do Coliseu, que em séculos se transformaram num elefante branco, e intrigam arqueólogos do mundo todo, serviram para lavar dinheiro de uma empresa para quem o imperador Vespasiano dava palestras supervalorizadas, com honorários muito superiores ao que César cobrava no seu tempo (corrigidos).

Na planilha das empreiteiras, César poderia ser apelidado de Egípcio, pelo deslumbramento que teve com o império vizinho e sua imperatriz. Marco Antônio, seu sucessor, apareceria como Priápico, pelo seu apetite sexual incontrolável, ou Ricardão, por ter roubado o amor de seu antecessor, Cleópatra, apelidada de Alpinista Piramidal, uma versão egípcia da História Antiga da atual alpinista social.

Nero foi quem fez a festa das empreiteiras. Colocou fogo na cidade para construir um palácio digno de um marajá, autoridade que ainda não existia entre romanos. Seu apelido nas planilhas não poderia ser outro: Etna.

Pulamos para a Era Moderna. Hitler poderia ter um apelido que sacaneasse suas ambições artísticas e o bigode, dado por construtores de Autobahns e do superfaturado Estádio Olímpico de Berlim: Pincel.

Goebbels, o papagaio de pirata do Führer, poderia ser conhecido como Sombra do Meio-Dia, devido à sua estatura. Já Stalin, de bigode mais vasto, mais rústico, mais operário, e em homenagem a suas estratégias de guerra: Vassourão. 

Do lado dos aliados, os apelidos não precisavam ser gentis. De Gaulle seria Galo (sempre empinado, ameaçador, que na primeira ameaça corre), Churchill, Isabelino, por seus discursos elaborados, que lembravam a época de ouro da poesia e dramaturgia inglesa, cujo maior expoente foi Shakespeare. 

Franklin Roosevelt, Decapita-Barata. Harry Truman, responsável por dar o OK às explosões de duas bombas atômicas, Radiador Furado. Seus sucessores, Kennedy (Mister Hollywood), Nixon (Marco Polo), Carter (Senhor Bonzinho), Reagan (Figurante), Bush Pai (Escada do Figurante), Clinton (RH) e Bush Filho (Sorvete na Testa), seriam facilmente nomeados.

O problema foi a chegada de Obama, Aquele Sobre Quem é Impossível Fazer Piadas. Obama foi o terror dos humoristas, que não conseguiam zoar com ele, até se renderem e o convidarem para atuar em programas humorísticos, servirem de escada. 

Em muitos deles, o primeiro presidente negro mostrou seu elaborado suingue, dançando. Obama é tão carismático, tão gente boa, que seu codinome não poderia ser outro: Aquele Que Não Conseguimos Apelidar.

A turma de empreiteiros, geralmente de homens brancos e pesados, tem ganância e preconceitos. Se no Brasil Lídice da Mata virou A Feia, Jackie Onassis seria apelidada nas planilhas de Corna Mansa, e Hillary, coitada, Corna Brava. Trump? Nem tomou posse, mas para mim já está decidido: Vitamina C.

Na História Brasileira, apelidar, passatempo favorito dos cariocas, tomou força com a chegada da Família Real em 1808. Que, por sinal, deu um impulso inédito nessas terras no setor da construção civil. De lá para cá, são incontáveis os apelidos.

Os mais recentes são hilários, uma expressão do desprezo que sentem por seus sócios aqueles que negociam verbas públicas, os homens públicos: Caranguejo (Eduardo Cunha), Corredor (Duarte Nogueira), Amigo ou Brahma (Lula), Misericórdia (Antônio Brito), Boca Mole (Heráclito Forte), Todo Feio (Inaldo Leitão), Caju (Romero Jucá), Missa (Carlos Aleluia), Gripado (José Agripino), Campari (Gim Arnelo), Ferrari (Delcídio Amaral), O Santo (Geraldo Alckmin).

Mas duas das personalidades mais importantes da República não inspiraram. Michel Temer, que aparece 43 vezes no documento do acordo de delação premiada do ex-vice-presidente de Relações Institucionais da Odebrecht, Cláudio Melo Filho, é apenas MT. E Dilma? Olha só. Dilma não tem apelidos. Até agora. 

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