Epitácio Pessoa/AE
Epitácio Pessoa/AE

Nas nuvens com Ada Rogato

Lucita Briza resgata a memória da pioneira da aviação brasileira

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

19 Julho 2011 | 00h00

Entrevista

Lucita Briza

JORNALISTA E ESCRITORA

A menina Lucita ouvia sua mãe, Ada, relatar façanhas de uma outra Ada, a Rogato, brasileira que pilotava aviões, cruzava as montanhas dos Andes e pousava no gelo do Alasca - sempre sozinha, geralmente sem rádio, o recurso de comunicação mais avançado da época, a primeira metade do século 20.

Feita jornalista, Lucita Briza decidiu que valia a pena resgatar a memória da heroína, nascida em 1910 e que só colecionou façanhas - até a morte, aos 76 anos, em 1986. O resultado é o livro Ada - Mulher, Pioneira, Aviadora (C&R Editorial, 307 págs., R$ 68). A pesquisa minuciosa da autora exigiu quase dez anos de trabalho. Na semana passada, Lucita Briza falou ao Estado.

Como foi a sua descoberta de Ada Rogato?

Ada, que em vida se tornou um ícone da aviação, após sua morte havia submergido no esquecimento. E eu queria retratar uma mulher corajosa, à frente de seu tempo. Saí então à procura de dados sobre ela, e eram muito poucos. Achei que era preciso resgatar essa história.

Rogato compreendia suas ações como plataformas da inserção da mulher?

Ao ser indagada em 1941 - mais de 20 anos, portanto, antes do auge da campanha feminista - sobre quais atividades podiam ser chamadas de femininas, ela foi taxativa: disse que eram as de "todos os setores da ação humana", sem que isso implique a perda da feminilidade.

Quais foram as principais façanhas de Ada Rogato?

Ela superou qualquer recorde masculino ao se tornar o primeiro piloto civil a pousar e decolar com avião de pequena potência (um Cessna de 90 Hp) no aeroporto então mais alto do mundo - o de El Alto, em La Paz (1952); e em 1956 foi o primeiro aviador a sobrevoar toda a selva amazônica num monomotor (o mesmo Cessna), sem rádio e sozinha. Antes disso, já havia sido pioneira entre as brasileiras a atravessar os Andes, em 1950, num reide de 11.200 km pelo Paraguai, Argentina, Chile e Uruguai, num avião ainda menos potente: um Paulistinha de apenas 65 Hp. Em 1951, consagrou-se como a única aviadora do mundo, até então, a percorrer sozinha a extensa quilometragem de 51.064 km por todos os países e possessões da três Américas (exceto a Bolívia, para onde foi no ano seguinte), cruzando a linha do Círculo Polar Ártico em Fort Yukon, no Alasca, e voltando via Caribe. Também com seu Cessna atingiu em 1960 o outro extremo das Américas, tornando-se a primeira mulher a chegar a Ushuaia, na Terra do Fogo, pilotando um avião.

Como ela era vista pela aviação militar brasileira?

No início da carreira de Ada (1935), a aviação ainda engatinhava no País; o número de aviadores era pequeno e havia grande entrosamento entre os civis e os militares. O que só aumentou durante a Segunda Guerra mundial, quando ela foi um dos pilotos civis que cumpriram voluntariamente missões de patrulhamento no litoral paulista. As partidas e chegadas de seus reides eram sempre presenciadas por altas autoridades civis e também militares. Foi a primeira mulher a receber o título de Piloto Honoris Causa da FAB.

Você define Ada como um "pássaro solitário". Por quê?

"Pássaro" por voar e "solitário" porque ela, ao contrário de outras grandes estrelas da aviação, desde seus primeiros circuitos sempre voou absolutamente só - sem ajudantes.

Funcionária pública de função rotineira era muito dedicada ao trabalho.

Realmente, no serviço público estadual ela começou como simples datilógrafa no Instituto Biológico (IB) de São Paulo em 1940 e nunca atingiu altas chefias. Ao encerrar carreira no funcionalismo, em 1980, era chefe de seção - um cargo, digamos, de nível médio, embora fosse reconhecida como metódica, disciplinada e perfeccionista. Os momentos mais emocionantes de sua vida ela passou na cabine de seu avião.

Como era a vida pessoal de Ada?

Cedo, além de costura e bordado, aprendeu a pintar e a tocar piano. No piano que ainda existe, ela costumava dedilhar valsas vienenses, músicas de Chiquinha Gonzaga e até o Quem Sabe, de Carlos Gomes. Nos fins de semana era a estrela de acrobacias aéreas e saltos de paraquedas das festas aviatórias. Aproveitava para ganhar um extra fazendo táxi aéreo. À medida que sua fama ia crescendo, multiplicavam-se os convites para todo tipo de eventos. Gostava de frequentar confeitarias e de jantar após o cinema (adorava filmes românticos) em cantinas italianas com música ao vivo.

Ela nunca se casou e há apenas suspeitas de que, um dia, tenha tido um namorado.

Provavelmente, se alguém lhe perguntasse isso à queima-roupa, ela diria que havia se casado com a aviação, ou que tinha de cuidar da mãe doente. Mas, na verdade, sonhava com um companheiro. Ela confidenciou a duas de suas amigas que namorou um jornalista. Iria se casar, mas ele sofria de hanseníase e teve morte repentina. Na casa dos 70 anos ela tinha um enxoval completo guardado em casa e dizia que iria se casar com um brigadeiro.

Quantos anos tinha quando fez o primeiro e o último voo?

Tinha 24 anos quando começou a voar de planador em Cumbica, São Paulo, sendo a primeira mulher na América do Sul a se brevetar nesse tipo de aeronave. E seu último voo importante foi o reide até a Terra do Fogo, que ela iniciou e terminou no aeroporto de Piracicaba, às vésperas de completar 50 anos. Nunca pretendeu deixar de voar: até os 72 anos dizia que precisava de um avião mais potente para empreender viagens ainda mais ousadas. Não teve apoio.

Qual é a importância da memória de Ada Rogato?

Ada era uma brasileira que percebeu a onda de pan-americanismo que varreu o continente após a Segunda Guerra, para, com seus voos no espírito de boa vizinhança, divulgar o Brasil nas três Américas - e, por extensão, em todo o mundo. Todos os países preservam a memória de suas heroínas pioneiras. É só lembrar os inúmeros livros e quatro longas-metragens feitos sobre Amelia Earhart nos EUA, as várias biografias sobre as britânicas Amy Johnson e Beryl Markham (desta última outro filme marcou época), a homenagem à neozelandesa Jean Batten com seu avião pendendo do teto do aeroporto da maior cidade do país, Auckland. Nós não fazemos nada pelas nossas.

TRECHO

No aeroporto local, estavam o cônsul brasileiro, Leônidas Borges de Oliveira, ...

autoridades municipais e mais de 200 pessoas. Muitas delas, conta A Gazeta de 16 de julho, estavam curiosas "para ver o avião e conhecer a heroína, mas, principalmente, para verificar o que era naquele dia importantíssimo pormenor: viria vestida de slacks ou saias?". Curiosidade explicável, pois era a primeira vez que uma mulher chegava àquela cidade pilotando um avião.

Em um instante Ada matou a curiosidade ao surgir à porta da cabine vestida "com a simplicidade que a caracterizava - uma indumentária absolutamente feminina, a tradicional saia e blusa". Ao vê-la nesses trajes, disse o jornal, o público feminino "vibrou de entusiasmo", e mais ainda ao constatar que ela viera sozinha! Foi uma "consagração". Todos queriam cumprimentá-la, abraçá-la... falar com ela".

Aquele foi um dia de alvoroço em Santa Cruz.

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