Nas fronteiras da vida

'Uma Longa Viagem' é retrato do Brasil e de toda uma geração

O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2012 | 03h13

De maneira um tanto esquemática, costuma-se dizer que a juventude radical dos anos 60/70 tinha duas alternativas - as armas ou as drogas. Ambas vertentes, e talvez ainda uma terceira, conviveram na mesma família, a da cineasta Lúcia Murat, e este é o núcleo duro do seu belíssimo documentário Uma Longa Viagem, que entra agora em cartaz depois de vencer o Festival de Gramado de 2011.

A própria Lúcia Murat lutou contra a ditadura e pagou caro por isso. Foi presa e torturada durante os chamados anos de chumbo. Mas o personagem mais evidente do filme não é a cineasta e sim seu irmão, Heitor, que foi mandado para o exterior pela família justamente para protegê-lo de um possível envolvimento com a luta armada. É de Heitor a "longa viagem" de que fala o título. Há ainda outro irmão presente de maneira virtual na narrativa, o médico Miguel.

Quem toma a frente de todos é Heitor, entrevistado pela irmã. Ele, e seu "duplo", interpretado pelo ator Caio Blat, ao ler as cartas que o andarilho enviava à sua família, em especial à mãe, durante suas viagens pelo mundo. É um recurso interessante, funcional e bastante tocante, afinal de contas. Caio lê as cartas como se as estivesse escrevendo. Ao fundo, entram imagens em transparência, evocando os lugares de que fala, alguns exóticos, naquele tempo, como Índia e Afeganistão. A técnica foi inspirada pelo curta-metragem Superbarroco, de Renata Pinheiro. A atmosfera assim criada, pela leitura das cartas e pelas imagens em sobreposição, beira ao onírico, mais que ao realístico.

E, de fato, as viagens de Heitor tinham esse caráter de sonho um tanto desesperado, mas cuja profundidade quase nunca aparece na narrativa das cartas, muito bem escritas, vívidas, porém destinadas mais a sossegar a família do que esclarecer exatamente o que ele estava passando. Esse sentido se completa pelo que fala, no tempo presente, com a dicção um tanto prejudicada talvez por medicamentos fortes, mas com a inteligência intacta de quem muito andou, viu e experimentou. E de quem assimilou e decantou toda essa experiência variada. Afinal, viajar, no sentido literal e no figurado, era o ideal de uma geração. Tudo o que evoca Heitor é expresso com invejável senso de humor, que contamina (de maneira positiva) o filme, do princípio ao fim.

É bom que haja esse tempero, mesmo porque Uma Longa Viagem traz também passagens pouco agradáveis, como a memória dos tempos de cárcere de Lúcia. Ou os episódios de internação de Heitor, como consequência provável de trips prolongadas. Há também o elemento deflagrador do filme - o luto pela morte prematura do irmão Miguel, médico abnegado, cheio de consciência social.

Nesse ambiente, tanto emocional como rigoroso, se estabelecem as maneiras muito diferentes de se opor à ditadura e que se deram no interior de uma mesma casa: a resistência pelo trabalho social, o confronto armado e a opção pelo desbunde e a contracultura. Racionalizadas, essas alternativas cobririam quase o espectro completo das formas possíveis de sobrevivência psíquica em tempos ruins. Pois é claro que, falando de pessoas particulares, o filme trata de toda uma época da história recente brasileira, uma fase de ruptura, cujas consequências ainda estão presentes na vida de todos e não apenas nas de seus protagonistas.

Por oferecer esse retrato particular, ao mesmo tempo tão abrangente, Uma Longa Viagem justifica a imersão corajosa da diretora na intimidade da sua família. Um revisita que, pode-se adivinhar, não foi feita sem dor ou hesitações. De qualquer forma, oferecida ao público tantos anos depois, é uma continuação, em termos pessoais, das convicções políticas e libertárias da cineasta.

O Brasil da democracia progrediu muito em relação ao País do AI-5 e das prisões arbitrárias. Em outros aspectos, por exemplo na relação harmoniosa com os diferentes, os avanços não parecem tão notáveis. Dois ritmos diferentes de desenvolvimento convivem. O testemunho de histórias tão dilaceradas serve de medida a esses graus de evolução distintos. No Brasil de 2012 ninguém é preso por ideias políticas e nem enfrenta com armas um governo ilegítimo. Por outro lado, a sociedade caminha rumo a uma normalização compulsória (maquiada pelo politicamente correto), que continua a marginalizar quem não se enquadra na média. Há muito que fazer.

Crítica: Luiz Zanin Oricchio

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