Nas alturas

Suspenso no espaço, a 103 andares acima de Chicago, o Ledge faz sentir todo o poder e a fragilidade humanos

Edward Rothstein, do The New York Times, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2011 | 00h00

Olhar para baixo pelo chão de vidro sobre a avenida South Wacker Drive produz exatamente o efeito que esperaríamos se estivéssemos equilibrados sobre 6.960 caixas da famosa pizza de massa grossa da cidade - ou, como informa a exposição na Torre Willis, sobre uma estrutura formada por 313 Oprahs ou 283 Obamas, para citar dois dos habitantes mais famosos da cidade.

Esse pensamento já traz uma sensação de vertigem. Para nosso conforto, torres humanas como as duas sugeridas acima chegariam ao topo do próprio prédio, enquanto esse mirante atípico é um pouco mais baixo, instalado no 103.º andar: para chegar a essa altura seriam necessárias menos pizzas, apresentadoras de TV e presidentes.

Mas isso não traz muito alívio. Suba ao Ledge (algo como "parapeito"), como é chamada a plataforma no observatório da torre, o Skydeck, e olhe para baixo, no sentido dos telhados e dos helicópteros que acompanham o tráfego, ou para a esquerda, para a claridade que vem do lago, ou para frente, para o tabuleiro formado pelas ruas da cidade.

Apesar da segurança transmitida pelos rebites metálicos nos painéis de vidro de 680kg, da calmaria do ar no ponto mais alto da Cidade dos Ventos e da capacidade de suportar até 4,5 t de cada uma das caixas de vidro, que se estendem a uma profundidade de 1,3 m para além da extremidade do edifício mais alto do Ocidente - apesar de tudo isso, ainda sentimos um frio na barriga.

Se o Criador quisesse que fôssemos capazes de enxergar tão longe sob nossos pés quanto enxergamos sobre nossas cabeças, é claro que não teria inventado essas extensões de vidro, que foram acrescentadas ao Skydeck em 2009. É reconfortante saber que foram projetadas pelos arquitetos originais do prédio, Skidmore, Owens & Merrill, mas a sensação de estabilidade desaparece com a eliminação de praticamente toda a sustentação visível; o visitante entra numa espécie de aquário suspenso, cercado pelo espaço aberto e pelo ar, 412 m acima de South Wacker Drive.

A brincalhona formalidade do arranha-céu de vidro parece muito diferente quando nos vemos dentro de sua estrutura transparente onde não há aço evidente. É nesse ponto que a engenhosidade vira travessura; uma provocação da tecnologia.

Mas o Ledge oferece também uma emoção que não experimentamos ao visitar um primo distante seu: a passarela Grand Canyon Skywalk. Inaugurada dois anos antes da então Torre Sears, prometia um espetáculo bem impactante: um observatório transparente a 20 m além do precipício do Grand Canyon, suspenso 1.200 m acima do Rio Colorado (mais alto do que 900 Oprahs e uma quantidade inimaginável de caixas de pizza).

Foi construída num terreno dos índios hualapais, que tinham a esperança de que a Skywalk trouxesse a eles um futuro econômico melhor. Visitei a Skywalk pouco depois de sua inauguração e fiquei impressionado - não por causa da paisagem sob meus pés e sim pela irrelevância do empreendimento. Nada superava o espetáculo oferecido pela própria natureza.

Recentemente, a passarela tornou-se alvo de várias disputas legais entre a tribo e a construtora, e parece haver algo de equivocado na sua concepção. As maravilhas do mundo natural provocam em nós um impacto intenso. Não precisamos sentir vertigens para contemplar o espetáculo e compreender sua força.

Mas o Ledge, visitado por 1,5 milhão de pessoas todos os anos, dá uma sensação que o observatório Skydeck, com suas vistas panorâmicas de Chicago, não é capaz de oferecer.

Quando olhamos por uma janela para a metrópole que se estende diante de nós, a cidade se torna um mapa, permitindo que compreendamos parte de sua imensidão. Mas essas imagens não têm o poder de perturbar nem de chocar o observador.

Entretanto, quando é puxado o tapete - ou melhor, quando substituímos o chão e todas as formas de sustentação por camadas de vidro -, o que ocorre é algo diferente. Nós nos tornamos observadores vulneráveis. Vivenciamos a sensação tão humana da instabilidade.

Quer sentir ao mesmo tempo o poder e a fragilidade da civilização humana? Então caminhe sobre o Ledge. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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